El Greco
(Domenikos Theotokopoulos)


The Spoliation, 1577-79

Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

PARIS EM CHAMAS? NÃO, PARIS ESTÁ EM FESTA !

Para os mais de 3 milhões de parisienses, aquele momento era o mais extraordinário dos milagres. A Segunda Guerra Mundial, que havia causado tantas mortes e tantas ruínas, tinha poupado Paris.


Em 25 de agosto de 1944, perto do momento da sua liberação, a capital francesa saía ilesa de um dos conflitos mais terríveis da história. Durante os 52 meses em que estivera ocupada pelos nazistas, a cidade passou por muitos sofrimentos, mas não havia perdido sua alma.

Com a falta de gás e o racionamento de energia elétrica, as refeições eram preparadas em pequenos fogareiros, cujo combustível eram as pequenas bolas de papel. A população passava fome. Para resistir a essa penúria, Paris se transformou em uma grande aldeia, que despertava todas as manhãs com o canto dos galos. Os parisienses tinham transformado suas casas em verdadeiros galinheiros. Como muitos de meus camaradas, eu criava coelhos no meu quarto. Para alimentá-los, todos os dias, pela manhã, antes de ir à escola, eu arrancava alguns tufos de grama nos jardins públicos de meu bairro.


Uma nova placa de sinalização acabava de ser posta nos principais cruzamentos da cidade: "Para o front da Normandia" (Zur Normandie Front), indicava. Mas esse era um destino pouco provável. A maioria dos comboios militares seguia na direção oposta. Na saída da escola, nosso passatempo preferido era o de contar o número de veículos - havia até carroças entre eles - que protagonizavam aquela cena de fuga. Os caminhões transportavam os nazistas que haviam ocupado a cidade por quatro anos. Em pé, da carroceria, "camundongos cinzas" choravam e agitavam seus lenços. Homens gritavam que voltariam antes do Natal. Nessa multidão de retirantes encontravam-se também os colaboradores franceses. Eu vi a dona da mercearia de nossa rua subir em um desses veículos. Durante todo o período da ocupação nazista, ela havia servido prioritária e gratuitamente os militares alemães que habitavam o bairro. O mais espantoso era a gigantesca mudança que acompanhava a partida de cada um deles. Nos caminhões repletos, Paris se esvaziava. Eram carregados tapetes, móveis, telefones, postos de rádio. E o que os alemães não podiam levar, queimavam. O céu da cidade escurecia rapidamente com uma fumaça negra que espalhava as cinzas de toneladas de arquivos e documentos.


Para a população da capital, essa agitação era o sinal da iminente retirada das forças alemãs. Desde o dia 15 de agosto, bandeiras francesas - e dos aliados - começavam a ser hasteadas nas janelas. Essa manifestação prematura despertou a cólera dos ocupantes ainda presentes. Como represália, patriotas foram sumariamente executados. Os alemães ainda eram poderosos, como não tardariam a descobrir os resistentes que, em 19 de agosto, desceram às ruas para persegui-los. Os revoltosos parisienses ignoravam que, em seu quartel-general da "toca do lobo", na Prússia oriental, Adolf Hitler anunciava a sua decisão de lutar por Paris. Se necessário, ele a reduziria a "um monte de ruínas".

Vinte anos depois, quando Larry Collins e eu iniciamos as pesquisas para o nosso livro Paris brûle-t-il? (Paris está em Chamas?), encontramos o general Dietrich von Scholtitz em sua modesta residência na cidade alemã de Baden-Baden, próxima a Sttutgart. O homem a quem Hitler tinha confiado em 7 de agosto de 1944 a missão de executar suas terríveis vontades desfrutava sua aposentadoria.



Em nossas conversas, descobrimos que o comando alemão enviara reforços de artilharia e unidades de demolição encarregados de explodir as pontes da cidade e muitos imóveis industriais na região parisiense. Duas divisões blindadas, a 25a e a 26a Panzer, assim como o morteiro Karl, um artefato medonho do qual Choltitz já havia feito uso para arrasar Sebastopol, na Rússia, estavam a caminho da capital. Paris corria o risco de conhecer o inferno. Pudemos reconstituir minuciosamente o aterrorizante suspense vivido nessas horas, quando os parisienses pareciam destinados ao apocalipse. Por que este caos não aconteceu?


Há, sem dúvida, muitas razões. Uma das mais interessantes pareceu-nos vir de uma análise aprofundada da personalidade do general alemão. Choltitz havia acabado de retornar da Normandia, onde assistiu impotente ao massacre de seus soldados pelo dilúvio de fogo dos blindados e dos aviões aliados. Seu breve encontro com Hitler, em 7 de agosto, na "toca do lobo", colocou-o diante de um homem absorvido por um surto megalomaníaco. O militar havia ido se encontrar com um líder, mas deparou-se com um doente. Essa decepção teve papel decisivo em seu comportamento.

De todas as cenas que nos propusemos a reconstituir, uma das mais interessantes aconteceu na manhã de 16 de agosto. Aterrorizado pelos relatórios que recebia, segundo os quais os alemães estariam arrasando diversos monumentos como o Senado, a Câmara dos Deputados e a Torre Eiffel, o prefeito de Paris, Pierre Taittinger, telefonou para o Hotel Meurice, na rua de Rivoli, onde estava abrigado o QG do general Dietrich von Choltitz. Taittinger queria ter urgentemente uma audiência com o comandante da "Gross Paris", a Grande Paris, como foi chamada a cidade durante a ocupação nazista. Enquanto o francês procurava convencer o prussiano a poupar sua cidade, Choltitz foi acometido por uma violenta crise de tosse - ele sofria de asma. Quase sufocado, ele se levantou e conduziu o seu visitante para o balcão de seu escritório.

Do local, o admirável panorama que se estendia sob seus olhos dava ao francês os argumentos de que precisava. Apontando para as torres de Notre-Dame, a cúpula do Panteão, a Torre Eiffel, ele lhe lançou um apelo. "Os generais têm com freqüência o poder de destruir, raramente o de edificar", declarou. "Imagine que, um dia, o senhor volte aqui como turista, contemplando de novo todos estes testemunhos de nossa história, e possa dizer: 'Fui eu, o general von Choltitz, que um dia poderia tê-los destruído, que os conservei, como um donativo à humanidade'. General, isso não vale toda a glória de um conquistador?", concluiu. O alemão permaneceu mudo por um momento. Depois, voltou-se para Taittinger. Com uma voz lenta, articulando bastante suas palavras, lhe respondeu: "O senhor é um grande advogado por sua cidade, e fez o seu dever. Eu, como general alemão, devo fazer o meu".

continuação

Na véspera desse encontro, após uma inspeção em suas forças, o comandante da "Gross Paris" teria pedido que seu chofer o conduzisse aos Champs-Elysées para uma surpreendente atitude. No alfaiate Knize, ele comprou um grande sobretudo; encontrei a fatura dessa compra com sua antiga secretária, em Munique.


Perguntamos a ele, naturalmente, o porquê da compra do casaco em pleno verão. Ele nos confessou que temia o rigor do próximo inverno, o que provava que ele não tinha nenhuma intenção de executar as ordens de Hitler. Vinte anos depois, Uberta von Choltitz, a esposa do general, mostrou-nos orgulhosamente esse traje, que ela tinha conservado com muito cuidado. Costurado no bolso interno, havia a marca Knize - alfaiate para homens - Paris, Londres, Berlim, e a data de 15 de agosto de 1944.

Numa rica propriedade às margens do Tegernsee, lago situado perto de Munique, encontrei-me com o homem que nos inspirou na escolha do título de nosso livro Paris brûle-t-il? (Paris está em chamas?). O jovem general Walter Warlimont era, em agosto de 1944, chefe do Estado-maior adjunto do OKW, o exército alemão. Por força de seu estatuto, ele assistiu às duas conferências estratégicas de Hitler em sua "toca do lobo". Warlimont teria descrito em seu diário os acontecimentos desses dias cruciais.


Nele, pude ler as seguintes linhas, referentes ao dia 25 de agosto de 1944: "São pouco mais de 13 horas, quando tem início a conferência. Diante do Führer está o relatório das operações do grupo de Exércitos B, que anunciava a chegada das forças aliadas ao centro de Paris. Diante dessa notícia, Hitler grita que é inconcebível a entrada do inimigo na capital com tamanha facilidade. Aos berros, diz ter dado as ordens necessárias para que a cidade fosse aniquilada. 'Essas ordens foram executadas?', pergunta ao general Jodl, chefe de seu Estado-maior. Mais uma vez, ele grita: 'Jodl, Paris está em chamas?'...". O führer não obteve resposta. Todas as comunicações telefônicas e de rádio com Paris tinham sido cortadas. Os carros da 2a divisão blindada do general Leclerc e os soldados da 4a divisão de infantaria americana acabavam de libertar a capital.


No momento em que Hitler fazia sua pergunta, os soldados de Leclerc invadiam o Hotel Meurice e capturavam Choltitz. O alemão não impôs nenhuma dificuldade para assinar a rendição incondicional da "Gross Paris". Uma multidão em delírio começava em toda parte a invadir as ruas e avenidas para aclamar os libertadores.


Eu consegui escapar à vigilância de meus pais e corri para a avenida Champs-Elysées. Um tanque americano, com uma grande estrela branca pintada no alto, acabara de parar em frente ao Grand Palais. Ao ver um soldado americano, atirei-me em sua direção. Mas, enquanto eu corria, percebi que não saberia o que lhe dizer, pois não falava inglês. Na escola, fomos obrigados a aprender alemão. Chegando aos pés do grande americano, que sorria, subitamente lembrei-me que conhecia pelo menos uma palavra no idioma deles.


E gritei-lhe: "Corned beef ! ". Ele me deu um sorriso e, depois, subiu no tanque, desaparecendo em seu interior. Trouxe-me de volta uma enorme lata de "corned beef", que me deu de presente. E, na verdade, que belo troféu era esse presente para um estudante privado de carne por tanto tempo!


No dia seguinte, sábado, 26 de agosto, meus olhos se encantaram com o mais fabuloso espetáculo que jamais será visto novamente: o desfile triunfal da Libertação na Champs-Elysées, conduzida pela orgulhosa figura de Charles de Gaulle. Um homem cuja voz havíamos escutado por quatro anos sem jamais conhecer seu rosto. Ao longo da mais bela avenida do mundo, a multidão inundou as calçadas, dependurou-se nas árvores, agarrou-se aos lampadários, debruçou-se nas janelas. A passagem do general desencadeou um coro de milhares que gritavam ininterruptamente. Pessoas desmaiavam sob o efeito conjugado da emoção e do sol desse esplêndido dia de verão.


No momento em que de Gaulle e seu cortejo chegaram à praça de la Concorde, ouviu-se um tiro. A esse ruído, milhares de pessoas se atiraram ao solo. Minha mãe me escondeu sob um carro blindado. Nesse instante, o atirador de um tanque mirou seu canhão sobre as colunas da fachada do Hotel Crillon e abriu fogo. Numa nuvem de poeira, a quinta-coluna do edifício veio abaixo. Naquela noite, apoiando-se sobre a torre de seu carro, um jovem soldado americano, de nome Irwin Shaw, escreveu uma carta para a mãe. Sem dúvida, as palavras daquele jovem, que se tornaria um célebre escritor, iriam oferecer uma conclusão ao dia único que ele acabara de viver: "Mamãe, a guerra deve acabar nesta noite".

Lapierre, historiador e jornalista Tradução de Wagner Amorosino

BELEZA DO PANTANAL

Topetinho (macho)  Lophornis chalibea
Foto de Carlos Ravazzani

Transcrevo aqui um pequeno fragmento do conto "O Capote" de Nicolai Gogol, por achar que encontramos hoje no Brasil, figuras que tanto se assemelham ao personagem do conto "alta personalidade". São exemplos dele: Luiz Inácio da Silva, Severino Cavalcanti (com maiores evidências), uma tropa na câmara dos deputados, alguns no Senado, nas assembléias legislativa dos estados e nas câmaras municipais, no poder executivo estadual e municipal.

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem ter evitado a divulgação de supostos casos de corrupção ocorridos durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), relatados a ele por "um alto companheiro", no início da gestão petista.

Sem citar nomes, Lula disse que o episódio ocorreu quando um "alto funcionário" de seu governo, "que exerce função muito importante", foi prestar contas da situação econômica da instituição que acabara de assumir." (reportagem da Folha de São Paulo – Herança e Omissão 25/02/2005)


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Faltou nesse dia ao serviço, pela primeira vez na sua vida. No dia seguinte apresentou-se pálido e com o antigo capote, que parecia agora muito mais esfarrapado.


A noticia do roubo - apesar de alguns funcionários aproveitarem a ocasião para novas zombarias - comoveu, no entanto, muitos. Resolveram fazer uma subscrição, mas o resultado foi insignificante: os empregados da repartição tinham subscrito já para o retrato do diretor e tinham comprado, por indicação do chefe, amigo do autor, um livro que acabara de publicar-se. Um, mais disposto a compadecer-se, decidiu, pelo menos, ajudar Acaqui Acaquievich com um bom conselho e disse-lhe que não devia ir à Inspeção, pois podia suceder que, mesmo que o inspetor encontrasse o capote, este continuasse nas mãos da polícia, se não fosse capaz de demonstrar legalmente que lhe pertencia; melhor seria dirigir-se a uma "alta personalidade", com a mediação da qual pudesse dar-se mais rapidez ao andamento do caso.


Não pareceu mal a Acaqui Acaquievich tal conselho, e por isso decidiu dirigir-se a uma "alta personalidade". Convém saber que essa "alta personalidade" ascendera há pouco tempo, tendo sido, até ai, completamente ignorada. A sua posição, não sendo, aliás, das mais elevadas, comparada a outras, não era destituída de relevo. Sempre se encontrará gente disposta a apreciar estas personalidades que carecem de intrínseca importância e que, no entanto, são elevadas em relação a muitos. A personalidade a que nos referimos esforçara-se por se evidenciar de muitas maneiras, a saber: introduzira o costume de que os funcionários inferiores o esperassem na escada quando entrava de serviço e estabelecera que ninguém teria direto acesso à sua presença, devendo observar-se estritamente a ordem seguinte: o amanuense devia entregar a petição ao oficial; este, por sua vez, entregá-la-ia ao funcionário de categoria imediatamente superior, até chegar, de grau em grau, ao seu destino. Assim se encontra tudo infectado na santa Rússia pela imitação: julga cada um desempenhar bem o seu importante papel imitando o que lhe está acima. Diz-se até que certo conselheiro titular, quando o fizeram diretor de uma repartição modestíssima, fez separar, por um tabique, o seu gabinete daquilo a que ele chamava "o pessoal de serviço", pondo à porta dois contínuos agaloados, que abriam a porta a quem chegava: e convém saber que nesta importante secretaria de Estado pouco mais cabia que uma vulgar secretária.


O modo de receber, assim como os gestos e hábitos da "alta personalidade", eram graves e majestosos, mas um tanto complicados. O fundamento principal do seu sistema era a disciplina. "Disciplina, disciplina e... disciplina", costumava ele dizer. E ao repetir pela terceira vez esta palavra fixava intensamente a pessoa a quem se dirigia, ainda mesmo sem o menor motivo para tal, pois os dez funcionários de que se compunha o mecanismo burocrático da repartição andavam sempre num verdadeiro terror. A conversação da "alta personalidade" com os inferiores recaia, em geral, no tema disciplina e compunha-se de frases deste gênero: "Como se atreve você? Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem é que se encontra diante de si?" Era, noutros aspectos, homem de bom coração, afável e até serviçal para os da sua classe; mas a patente de general fizera-lhe perder o senso comum. Desde que recebera a nomeação, andava desvairado, descontrolara-se e não se apercebia bem do que se passava nele próprio. Se tratava com iguais, era um homem correto, ordenado, e até, sob muitos aspectos; inteligente, mas, apenas se encontrava num grupo de gente de situação social inferior, já não sabia onde tinha a mão direita: tornava-se hirto e silencioso e a sua situação era tanto mais digna de dó quanto é certo que ele era o primeiro a saber que poderia passar o tempo de maneira muito mais agradável. Transparecia, às vezes, nos seus olhos o desejo de entabular uma conversa interessante com os funcionários; mas paralisava-o este pensamento: "Não seria excesso da sua parte? Não seria excesso de familiaridade, com que a sua dignidade perigasse?" Como conseqüência de tais reflexões, permanecia eternamente só, impenetrável, limitando-se a emitir um ou outro monossílabo. Conquistou por esta razão o título de "o homem que se aborrece".

Foi perante esta "alta personalidade" que se apresentou Acaqui Acaquievich, precisamente no momento menos favorável, muito adverso para ele, embora o mais oportuno possível para a "alta personalidade", que nessa própria ocasião se encontrava no seu gabinete e dialogava muito alegremente com um antigo conhecido, companheiro de infância, a quem há já vários anos não via. Tal foi o momento em que lhe anunciaram um tal Baquemaquine. Perguntou bruscamente: "Quem é?" Responderam-lhe que "um funcionário". "Bom, que espere; não tenho agora tempo", replicou a "alta personalidade". É preciso dizer-se que a "alta personalidade" mentia descaradamente. Tinha tempo; já acabara a conversa entre os dois amigos e estavam naquele ponto em que se recorre a frases desta espécie: "Assim era nesse tempo, Ivan Abramovich." "E como dizes, Estêvão Valarmovich." Entretanto, mandou que o funcionário esperasse, com o propósito de demonstrar ao amigo, há muito retirado do serviço oficial numa casinha da aldeia, quanto tempo tinham de esperar os funcionários na sua antecâmara. Finalmente, depois de terem falado quanto quiseram (ou, melhor dizendo, depois de terem calado o suficiente) e terem fumado um cigarro sentados nas comovidíssimas poltronas, de repente, como se por casualidade se recordasse, disse ao secretário, que estava de pé, junto à porta, com uns papéis para informar: "Se ainda ai está esperando o funcionário, diga que pode entrar."


Vendo o humilde Acaqui Acaquievich, com o seu velho uniforme, voltou a cara de repente e perguntou: "Que deseja?", com o tom de voz brusco e forte que antes experimentara em casa para tais emergências. Acaqui Acaquievich, que era um homem muito respeitador, atrapalhou-se um pouco e, com a liberdade com que lhe era possível dispor da sua língua, explicou, juntando agora com mais freqüência partículas desnecessárias, que o capote era completamente novo, que lho tinham roubado de um modo desumano, que se lhe dirigia para que interviesse, escrevendo ao inspetor, fazendo aparecer o capote.


Pareceu ao general que tais maneiras eram demasiado familiares,
- Que é isso, senhor? - perguntou bruscamente. - Não conhece o regulamento? Donde vem? Não sabe como se procede em tais casos? A primeira coisa que devia fazer era dirigir um requerimento à secretaria; esse requerimento seria então remetido, pelas vias competentes, ao chefe de repartição; este, por seu turno, remetê-lo-ia ao secretário, e o secretário tê-lo-ia remetido a mim...


- Mas, Excelência... - disse Acaqui Acaquievich, esforçando-se por reunir a pouca força que encerrava a sua alma e sentindo que transpirava de modo atroz. - Eu, Excelência, atrevi-me a apresentar-me diretamente, porque os tais secretários... é gente em que se não pode confiar...


- Quê? ... O quê?... O quê?... - clamou a "alta personalidade"... - Onde foi o senhor buscar essa idéia? Donde lhe surgiram tais pensamentos? Que audácia se está generalizando entre os jovens contra os superiores e a hierarquia?
A "alta personalidade" demonstrava assim que não reparara em Acaqui Acaquievich, o qual estava já nos 50; doutra maneira, chamar-lhe jovem seria bastante estranho.
- Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem tem diante de si? Percebe isto? Percebe?, pergunto eu.


E deu uma forte patada no chão, imprimindo à voz tanta energia que mesmo um outro que não fosse Acaqui Acaquievich teria ficado bastante assustado. Este, porém, deveras aterrado, sentiu um abalo interior e começou a tremer convulsivamente; mal se podia agüentar de pé, e, se um empregado não acorresse a ampará-lo, teria caído ao chão; retiraram-no hirto do gabinete. Mas a "alta personalidade" estava contente com o efeito, que fora muito além de todos os seus cálculos. Embriagado com a idéia de que a sua voz forte era capaz de perturbar um homem até àquele ponto, olhou de lado para observar a impressão que fizera a cena, notando, não sem profundo prazer, que o amigo se encontrava na mesma situação indefinível e que até começava a sentir angústia.


Do modo como saíra do gabinete da "alta personalidade" e como chegara à rua nunca Acaqui Acaquievich foi capaz de se recordar. Não podia fixar-se no que acontecera: jamais, em toda a sua vida, um general, e demais o vento e a neve fustigavam-no; seguia pelo meio da rua, com a boca aberta, perplexo; o vento soprava, soprava, como é habitual em Sampetersburgo soprar o vento nas quatro direções, de todas as encruzilhadas. Em certo momento a garganta resfriou-se-lhe, começou a sentir os sintomas de uma angina e, quando chegou a casa, não tinha sequer forças para proferir uma palavra. Deitou-se na cama com o pescoço exageradamente inchado. No dia seguinte sobreveio uma febre altíssima. Graças à magnânima ajuda do clima sampetersburguês, a enfermidade progrediu mais rapidamente do que poderia esperar-se, e quando chegou o doutor tomou-lhe o pulso e entendeu que devia limitar-se a receitar qualquer coisa para o enfermo não morrer sem o benéfico auxílio da medicina; quanto ao mais, declarou que não viveria além de dia e meio; dirigiu-se à patroa, dizendo: "E a senhora não perca tempo: mande vir um caixão de pinho, pois um de mogno é muito mais caro."


O CAPOTE

por Nicolai Gogol

Muralha da China, em 1990, com cerca de 7 mil quilômetros de extensão, serviu de fronteira durante seu primeiro milênio de existência.

MURALHAS QUE DIVIDIRAM OS HOMENS

685 a.C.
Início da construção da
Grande Muralha da China

122 d.C.
Muralha de Adriano na Inglaterra

1940-1944
Linha Maginot e muralha do Atlântico

1961
Berlim dividida em dois setores,
Leste e Oeste

2004
"Barreira de segurança" entre a
Cisjordânia e Israel

Muitas foram destruídas pela ação do tempo ou pelo próprio ser humano por não mais cumprirem seu papel original. Para se protegerem ou separarem, os homens constroem muros desde a Antigüidade. O exemplo mais ancestral é o da Grande Muralha da China, com seus 3.460 quilômetros de extensão, mais outros 2.860 quilômetros de ramificações. Formidável obra de defesa militar, em alguns pontos com 16,5 metros de altura (o que equivale aproximadamente a um prédio de seis andares) e torres invariavelmente erguidas a cada 60 metros, ela serviu de fronteira durante mil anos. Seus primeiros sinais remontam ao século VII antes de nossa era.

Entrincheirar-se tem sido uma constante na humanidade. Mas a longo prazo essas muralhas não resistiram à pressão dos homens, das idéias e das armas. É e sempre será possível contornar um muro, por mais alto e perfeito que seja. Uma esperança para os cipriotas, turcos e gregos, divididos desde 1963, assim como para os irlandeses do Norte, católicos e protestantes, desde o fim dos anos 60, ou ainda para os coreanos do Norte e do Sul, eles também separados por um muro de arame farpado desde o armistício de 1953.

REVISTA HISTÓRIA VIVA

MUITO BARULHO POR NADA...

O mundo tem ficado cada dia mais barulhento. As inovações tecnológicas se caracterizam pela miniaturização das parafernálias e pelo excesso de ruídos que fazem. Acrescenta-se a isso, a conturbada vida das pessoas, que diante de qualquer coisa aprontam um verdadeiro escarcéu. O poeta inglês, tinha toda razão ao escrever a sua comédia, dar-lhe o singelo título de "muito barulho por nada".

Quando ocorreu a tragédia, no final de dezembro passado, em função do maremoto que atingiu vários países na costa do sudeste asiático, nunca se viu tanto barulho. Hoje, a situação daquelas pessoas que conseguiram sobreviver as invasões das tsunami, é lamentável, porém quase nada de efetivo foi feito para ajudá-las, apenas muito barulho. Transformaram o que foi uma tragédia em um show.

E tanto ruído não é a toa, ele é uma boa forma de desviar a atenção das pessoas para o que realmente alguns vem fazendo com o mundo. Com fim da União Soviética, balança reguladora do capitalismo selvagem, o mundo vem sofrendo uma grande expropriação de recursos, que são dirigidos ao capital financeiro, o câncer que nada produz e só acumula bens.

Diante de tudo isto, tenho tentado, faz algum tempo, capturar o silêncio das coisas. Para apreender o essencial e observar com mais clareza os fenômenos que estão ocorrendo no mundo.

Esta foto me vez lembrar do filme "Sonhos" de Kurosawa

Riqueza Literária

 

Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito (...). Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso,(...) escapei com a ferocidade com que se escapa da peste.

 

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, pág. 57-58

Minas, faz a gente, faz história

 

O canto do desencanto

Não há como tirar da poesia de Drummond a recusa do escapismo, a disposição de ler apenas o chão. E foi com esse simples reconhecimento da materialidade da vida que ele fez o verdadeiro Modernismo nacional, deixando uma herança que está em toda a cultura brasileira

DANIEL PIZA

Se você lê Carlos Drummond de Andrade para encontrar esperança, desista. Afinal, ele é autor do Soneto da Perdida Esperança: "Perdi o bonde e a esperança./ Volto pálido para casa." E dos seguintes versos de Mãos Dadas: "Estou preso à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças./ Entre eles, considero a enorme realidade." E definiu assim o seu ofício com as palavras: "Luto corpo a corpo,/ luto todo o tempo,/ sem maior proveito/ que o da caça ao vento." E em seu livro mais "social", A Rosa do Povo, abriu um poema com o imperativo: "Não faças versos sobre acontecimentos." E confessou seu desdém pela oferta de romper com a Máquina do Mundo, "enquanto eu, avaliando o que perdera,/ seguia vagaroso, de mãos pensas". E no final da vida apelou a seus "dessemelhantes" que lhe pediam louvas: "Minha só leitura é ler o chão."


Há algumas características que atravessam todas as fases de Drummond e enquadram aquilo que se pode chamar de "drummondiano". O que elas mostram essencialmente é sua noção de si mesmo como solitário, que lê o chão da realidade e esse chão é como o de Itabira, férreo, pedregoso, e nele o poeta encontra as coisas caídas do mundo, as ilusões, os desejos insatisfeitos, as memórias despedaçadas, as sombras que não existiriam sem o sol acima. Essa sua visão material, antimetafísica, é uma avaliação das impossibilidades de cumprir o sonho, de olhar para o infinito e não ser cegado; é a consciência do desencontro com a eternidade: "E o que mais, vida eterna, me planejas?", pergunta em Instante, para responder: "O que se desatou num só momento/ não cabe no infinito, e é fuga e vento."


Não há como tirar da poesia de Drummond essa hegemonia do desencanto, essa recusa ao escapismo. Não é por outro motivo a presença constante do advérbio "apenas" em toda sua poesia. "A vida apenas, sem mistificação." "Apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente/ e solitário vivo." Ninguém melhor do que o próprio Drummond descreveu sua obra, no célebre Poema-Orelha: "Não me leias se buscas/ flamante novidade/ ou sopro de Camões./ Aquilo que revelo/ e o mais que segue oculto/ em vítreos alçapões/ são notícias humanas/ simples estar-no-mundo,/ e brincos de palavra,/ um não-estar-estando." Os versos finais são quase como um lema: "a poesia mais rica/ é um sinal de menos." Sua poesia está concentrada em "cuidados terrenos", não em pensamentos transcendentais; em ler sua sombra no chão, sombra ao mesmo tempo intransferivelmente sua e, por sua fisionomia vaga e simples, um pouco a sombra de todos nós, que no entanto não encontraremos abrigo ali.


A figura popular e mesmo erudita de Drummond não é muito essa que ele pinta de si mesmo. Ele é tido como uma espécie de cantor do coletivo, o que sempre descartou prontamente. Suas opiniões políticas, assim como as de Graciliano Ramos, de um socialismo mais humanista que programático, não recebem nem dele mesmo a importância que lhe dão alguns analistas. A poesia de Drummond não cabe no fardão acadêmico nem na gravata ideológica. Embora ele tenha escrito muito e irregularmente, sua imagem como poeta oficial do Brasil não podia ser mais enganosa. Sua modernidade está justamente aí; está em, à sua maneira, ser maior sendo menor. Mesmo a análise brilhante de Davi Arrigucci no recente Coração Partido, em que define com feliz precisão a poesia de Drummond como "lirismo meditativo", falta a ênfase no fato de que essa meditação inclui a própria dúvida sobre as virtudes da meditação.

Minas, faz a gente, faz história - continuação


E é por isso mesmo que Drummond, se rejeita fugas, não abandona as buscas; não se entrega à desilusão, espelho da ilusão perdida; tem pelo desespero o mesmo desprezo que tem pelo mito. Sabe, apenas, que o passado deixa rastros no presente, e assim segue "desfiando a recordação" dos que sonharam e perderam. O que procura, como Machado de Assis, é "o mínimo e o escondido", um registro dos instantes que se foram e frustraram suas promessas. O único acontecimento sobre o qual faz poesia é o da pedra no meio caminho, e no entanto esse acontecimento jamais será esquecido, apesar do cansaço de suas retinas. Com esse simples reconhecimento da materialidade da vida, Drummond, o Andrade que não era nem Mário nem Oswald, fez o verdadeiro Modernismo brasileiro, descartando a ourivesaria parnasiana e calando as exclamações românticas.


Três poemas são particularmente exemplares desse modo peculiar de resistência: O Lutador, O Elefante e Áporo. No primeiro, o poeta diz lutar, "lúcido e frio", com palavras que lhe dêem o sustento; a luta é vã, inútil, mas prossegue por sua própria força inerente, pela mera realidade do ardor humano. No segundo, ele fiz fabricar um elefante "de meus poucos recursos", um ser feito de papel e cola que, apesar de frágil, alude a um "mundo mais poético" e, no entanto, cai, "e todo seu conteúdo/ de perdão, de carícia/, de pluma, de algodão/ jorra sobre o tapete,/ qual mito desmontado"; mas o poeta acrescenta: "Amanhã recomeço." E em Áporo, o mais discutido de seus poemas, um inseto perfura a terra "sem achar escape" e, do labirinto que constrói, "antieuclidiana", se desprende uma orquídea; mas, como diz o título, essa orquídea não significa uma saída: ela é apenas um instantâneo feliz, um subproduto de uma tarefa que ela mesma não consegue desempenhar. A promessa não é menos bela por ser promessa, mas não há delírio humano que possa convertê-la em motor do mundo.


O caráter fundador da poesia de Drummond vem de uma atenção às coisas simples da vida que jamais se confunde com sua exaltação. É claro que muito de sua influência veio daquela má interpretação, daquela visão de Drummond como uma espécie de Manuel Bandeira - talvez um pouco mais maduro ou intelectual - que exalta a simplicidade. Mas o que Drummond deixou de duradouro para a cultura brasileira é sua consciência dos paradoxos, sua coloquialidade que não apenas olha o presente, mas o apresenta, sempre em tom menor - uma aceitação dos engenhos reais em convívio com uma admiração pelas coisas naturais, uma inquietude que não grita, uma amargura que aprova o desprendimento. Ele sempre reconstrói e recomeça, ainda que seja inútil e esteja exausto.


É difícil traçar as influências sobre a poesia de Drummond, o que é uma prova desse caráter fundador. Certamente ele leu os românticos, para poder recolher as sobras de seus delírios. Talvez tenha tido a influência de Fernando Pessoa, o Pessoa ele mesmo, o do poeta como "fingidor" - influência perceptível, mas jamais avaliada, no livro Claro Enigma (1951): "As coisas findas/ muito mais que lindas/ essas ficarão." E certamente se deixou influenciar pela prosa, prosador que também foi, e que do ritmo da prosa tira uma narrativa como a desse prodigioso Caso do Vestido, com seu sabor dialógico, suas imagens economicamente fortes: "minhas mãos se escalavraram,/ meus anéis se dispersaram,/ minha corrente de ouro/ pagou conta de farmácia"; "me cortei de canivete,/ me atirei no sumidouro,/ bebi fel e gasolina". A mãe simplesmente se rende à rotina que, por ser rotina, faz esquecer o momento de fuga do pai, mas o vestido da amante está lá, pendurado no prego, vazio e desgastado, como eterno sinal de menos.


Entre lírico e irônico, entre introvertido e prosaico, Drummond deu à língua portuguesa mais que sua Antologia Poética (a que ele mesmo organizou em 1962, com notável poder de seleção); deu a ela uma nova qualidade, um modo ao mesmo tempo ético e livre de pensar, rico em ambigüidades, capaz de achados lingüísticos como de fluência constante, de juntar amargura e graça. Drummond não tem a densidade reflexiva de Fernando Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa no século 20. Mas sua herança está tanto no sotaque "mineral" de João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar como nas tristemente doces canções de Tom Jobim e Chico Buarque, o que significa que é de uma grandeza que talvez nem ele mesmo desconfiasse. Uma grandeza que vem do chão: "Estou preso à vida" é o que diz, e essa vida é simples, pequena, assumidamente pedestre.


Se você lê Carlos Drummond de Andrade para encontrar esperança, desista.

Riqueza literária
 

O Elefante

Carlos Drummond de Andrade

Em A Rosa do Povo, livro de Carlos Drummond de Andrade, ao qual pertence o poema O Elefante, objeto central deste trabalho, encontra-se também o poema Procura da Poesia, em que o poeta coloca seu conceito acerca da construção da arte poética: "Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intacta."

Em O Elefante, encontramos uma relação semelhante à desse texto acima transcrito: o poeta será aquele que se coloca diante de seu desígnio - a palavra -, esperando decodificá-la, nomeá-la poeticamente; feito isso, estabelece-se a relação criador/criação, autor/material. Tal fusão será tão intensa, que chegaremos ao momento em que um se confundirá com o outro, num mesmo instante poético.

A dialética criador / criação é um dos pontos mais abordados pela arte literária moderna, tanto em sua escritura como em sua crítica. Modernamente, o conteúdo é conseqüência do trabalho que o poeta faz com a palavra, e não mais sua causa. A criação poética passa a ser exatamente essa relação entre o autor e seu material.

Segundo Alfredo Bosi, em O Ser e o Tempo na Poesia, o homem, ao criar, coloca-se como o "deus" da criação, a partir do momento em que, como o "Grande Criador", tem o poder de nomear os seres. Nomear significa reconhecer, identificar; no nome, encontra-se toda a vivência do criador: é como ele vê o mundo, como entra em contato com ele, como estabelece esta inter-relação.

No caso do poeta-criador, este mundo a ser reconhecido é o "reino das palavras"; a palavra é o seu desafio maior, no desígnio de nomeá-la, dando-lhe sentidos especiais, tornando-a poética. Sendo assim, ao nomear, é como se se colocasse diante da vida, criando um processo metalingüístico dela. É o reconhecimento de que a "Grande Obra" do Criador está incompleta... Afinal, é como se Ele deixasse uma parte - pequena apenas na aparência -a essa sua criatura, que se transforma em criador ao relacionar-se com ela. A sensibilidade do poeta reconhece tudo isso: à imagem do Criador, que se estende em sua Grande Obra, desdobra-se na criação... desdobra-se tanto, até chegar a um momento em que não há diferença entre um e outro - criador e criação fundem-se num único espaço e tempo, sem limites, como resistência - conforme coloca Alfredo Bosi - diante da rotulação pré-estabelecida. Assim, também busca algo, ao mesmo tempo grande e grandioso em seu desígnio: sua criação é um elefante; não é o elefante, mas um elefante; não se pretende único, definido, específico, mas busca apenas ser um, modestamente composto de "poucos recursos"; é grande (elefante), porém, indefinido (um). É como se houvesse aí o primeiro de uma seqüência de paradoxos: "o elefante"- como nós o conhecemos- é definido ao extremo (visível e espalhafatoso em sua forma), mas "um elefante"- este, criado pelo poeta - será indefinido, etéreo, com todo o direito a sê-lo... é sua criação, em sua capacidade de perceber a forma, que pede para ser interpretada. O material de que será composto sairá da observação da "vida presente" (de que o poeta fala em "Mãos Dadas"), parte a parte, ainda etéreo, indefinido: "Um tanto de madeira / tirado a móveis velhos / talvez lhe dê apoio". É assim o pretenso apoio do elefante- "móveis velhos"; o mundo, a vida já existente, que o poeta pretende recriar. Sua essência mantém a estrutura diáfana: "... o encho de algodão, / de paina, de doçura". Ele é leve - é tudo o que não esperávamos de um elefante! As orelhas são "pensas", mantendo a estrutura inicialmente delineada: tem nelas, pela sua audição, seu acesso inicial - embora ineficiente - ao mundo. Mas "a parte mais feliz / de sua arquitetura" é a tromba.

Riqueza literária - continuação

 

O elefante, como observamos no prosseguimento da montagem, terá nela seu acesso mais possível: é possível sentir o cheiro do mundo, inalá-lo e envolvê-lo no enchimento de doçura e algodão, todavia é pouco possível ouvi-lo e comunicar-se com ele. Quem enxergaria um elefante tão etéreo ("Vai meu elefante/ pela rua povoada, / mas não o querem ver")? Tal impossibilidade de comunicação será ainda mais flagrante na tentativa de figurar as presas. Todos sabemos que o mundo valoriza o marfim; mata-se por ele... e é exatamente essa parte que o criador não consegue edificar - esta ele deixa para os circos; seu elefante é para a rua. Na atitude de o poeta colocá-lo na rua, localiza-se o ponto alto de tensão do poema: o elefante é a criação do poeta mandada às ruas, num desejo de contato sensacionista, num desejo de comunicação... é querer atingir o mundo... o criador expõe-se através da criatura, no início da fusão entre o autor e o material. A tensão resulta do fato de que o eu poético não concretizará seu desejo. O primeiro índice disso está no fato, já anteriormente mencionado, de não conseguir figurar as presas, exatamente aquilo que, de forma mais convencional, é observado num elefante. A riqueza de sua criação irá parta os olhos - "a parte do elefante / mais fluida e permanente, / alheia a toda fraude", pois, enquanto portais da alma, os olhos transmitem e geram vida; assim sendo, ninguém mata por eles: ninguém os ambiciona, porque ninguém os entende. Nessa tensão, o elefante, ingenuamente, tenta o contato, pois "sai à procura de amigos": "e move lentamente / a pele costurada / onde há flores de pano / e nuvens, alusões / a um mundo mais poético / onde o amor reagrupa / as formas naturais". É esta a sua arma maior: o amor. Como Platão, também acredita no Amor como energia maior do Mundo Inteligível, capaz de reagrupar, articular o que se apresenta desarticulado. Sua inocência é tão etérea quanto sua forma incognoscível; sua percepção não é suficiente para captar sua imensa fragilidade ("a cauda ameaça deixá-lo ir sozinho").Num processo de gradação, consegue ser "todo graça", embora "as pernas não ajudem / e seu ventre balofo / se arrisque a desabar / ao mais leve empurrão". O ventre, refúgio da vida, é preenchido também de doçura... mas ainda falta, sempre falta, e ele ainda está "faminto" Como não é visto, corre o risco de ser empurrado; como é apenas costurado, corre o risco de arrebentar e desabar. Mesmo assim, sustenta "sua mínima vida", mesmo que não haja "...na cidade / alma que se disponha / a recolher em si/ desse corpo sensível / a fugitiva imagem". Sensível e engraçado, dois adjetivos paradoxalmente entrelaçados. O paradoxo se dá devido à existência de dois ângulos de enfoque: ele é sensível em sua essência; é engraçado a partir do olhar alheio - é tocante, mas não é tocável. É como se os seres, no máximo, conseguissem ter pena dele... mais daí a tocá-lo, há uma grande distância, visto que, para chegar-se perto do que não se conhece, dá medo, é arriscado, principalmente se for algo que pode desabar a qualquer momento, de tão pesado. É um peso a não compreensão... o elefante está balofo de tanta vida; ele respira pela tromba enorme. É vivo demais para que se possa suportar, daí a idéia da comicidade... o riso preenche a lacuna deixada pela falta de entendimento: algo cômico torna-se algo descompromissado e, por conseguinte, não há razão para se entender. O mundo recua... e ele avança, acentuando o paradoxo inicial; tudo porque "o campo de batalha" o convida.

Em detrimento do riso alheio, o elefante mantém-se faminto. É a tensão do Eu X Mundo que se reforça: os outros riem; ele tem fome. A contraposição intensifica-se na conjunção adversativa utilizada pelo poeta - "mas" - revelando toda a desarmonia, a desarticulação entre o universo do criador/criatura e o do mundo. "Mas faminto de seres / e de situações patéticas" - também (e, talvez, principalmente) o patético faz parte da "vida presente"; porém é preciso entendê-lo para poder prosseguir. O patético riso é o desafio para chegar-se aos "encontros ao luar / no mais profundo oceano / sob a raiz das árvores / ou no seio das conchas / de luzes que não cegam / e brilham através dos troncos mais espessos" - é a máxima docilidade, que busca atingir o que o comum jamais atinge, o estrato vivo e essencial de cada ser, a luz, brilho na totalidade, desde o "profundo oceano", chegando ao "seio das conchas" - o fora (oceano, árvores) e o dentro (conchas)... num caminho ascendente, sem causar danos a nada, "sem esmagar as plantas / no campo de batalha". Mais importante que tudo é caminhar "à procura de sítios, / segredos, episódios / não contados em livro", aquilo que "os homens ignoram", por trazerem a "pálpebra cerrada"; novamente, para o homem, é preciso ignorar por medo de surpreender-se. Feito de "nuvens" e "flores de pano", ele "volta fatigado / as patas vacilantes / se desmancham no pó". Os passos, até agora desengonçados e constantes, fraquejam, por alguns instantes, tristes e cansados. "Ele não encontrou o de que carecia, / o de que carecemos, / eu e meu elefante, / em que amo disfarçar-me." Até esse instante do poema, tínhamos um elefante andando sozinho, buscando sozinho, qual personagem criado, "o de que carecia, / o de que carecemos". O pronome demonstrativo o é neutro: a essência buscada é vaga, ampla, grande demais, pois é luz (como anteriormente se mencionou), toda resumida no demonstrativo o; é a simplicidade reforçada. A criação carece... o criador carece... mais do que isso, um carece através do outro e vice-versa. Enfim, "eu e meu elefante, / em que amo disfarçar-me", num momento de epifania para o leitor: o elefante fabricado é o poeta e sua poesia (autor/material). Desta vez, o gauche do "Poema das Sete Faces" transformou-se num grande e desengonçado elefante, mantendo, em sua origem, o estigma de personagem torta: "caiu-lhe o vasto engenho / como simples papel", descolado, "e todo o seu conteúdo / de perdão, de carícia, / de pluma, de algodão, / jorra sobre o tapete, / qual mito desmontado"... imagem triste que pode gerar a idéia de que o criador vai desistir. Novamente, contrariando nossas expectativas, com a forma simples que lhe é característica, ele afirma: "Amanhã recomeço". Recomeçar, reconstruir, refazer... a poesia, constante diálogo com o mundo, perpetua-se na certeza da possibilidade de busca... é a palavra tornando-se vida, continuamente.

EQUIPE FERANET21

Encantos do Cerrado

PRONOMES

Não importa
o eu,
o tu,
o ele.
Mas sim,
o nós,
o vos,
o eles.
A busca do singular
é cômoda
e estéril.
Porém, o plural
abre caminho
para
o amor,
o ódio,
o insólito,
a fertilidade e
o caos.

REFLEXÕES DE NOSSO TEMPO

Freud, em Viena, chocado com o entusiasmo que a guerra provocara nos austríacos forçou-se a rever suas teorias da civilização. Percebeu, estarrecido, que por de trás do mais sisudo e empertigado europeu, batia o tantã de um selvagem. A cultura deles pareceu-lhe um falso verniz, bastando arranhá-lo para que a selvageria fosse exposta à vista.

Existe "Morte dos Valores"? como diz Umberto Eco, "cada ruptura da organização banal pressupõe um novo tipo de organização, que é desordem em relação à organização anterior, mas é ordem em relação a parâmetros adotados no interior do novo discurso". Quer concordemos ou não com estes novos valores.

RIO DAS VELHAS

Que trazes rio, a esta terra?
- A ganância,
a sede insaciável de ouro,
borbas gato que
procuram em ti pedaços do sol.
O oceano transpuseram-no.
Perdidos ao norte,
algum tempo lá ficaram.
Mas, tu sabes
o que move o mundo.
Hoje, aqui estão.
Sentindo-se abençoados,
pelas jazidas que em ti encontram.
Ti batizarão, serás Sabará.
Tu perderás a conta,
 do número de pessoas que aqui virão.
Eu, continuarei como um Estige,
contrário ao meu curso,
conduzindo-os a outras terras
que como ti, terás no nome poesia.
Mas, nunca mais
serão as mesmas.
Estupradas e desvirginadas
pela cobiça
carregarão para sempre esta chaga.
Revoltadas, sangraram em meu curso.
Apagando o rastro
que conduziu os desbravadores.

Alguma vez, já parou para pensar que tipo de leitor é você? Pois bem, Machado de Assis nos apresenta dois tipos, com características bem distintas. Com qual deles, você se assemelha?

Primeiro tipo: "Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que não ama nenhuma outra coisa além dos livros, inclina-se sobre a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito."

Segundo tipo: "Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."

Machado de Assis. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguiar, 1986. V.1, pág. 583 e 584

Como disse, os dois trechos apresentam dois tipos de leitores. No primeiro, o leitor tem um comportamento investigativo em relação ao livro. Quebra-o em pedaços, na tentativa de descobrir nele o seu despropósito. Não o lê de forma superficial e desce até as profundezas da teia textual. No segundo, o leitor gosta de ficar no plano superficial do texto, para ele a leitura tem que ser como um rio contínuo. Irrita-se, quando empaca num trecho. Gosta de uma leitura leve e fluída. No entanto, Machado de Assis, se identifica com o primeiro leitor. Ele é um animal ruminante, mastiga e engole as palavras; vomita-as e novamente na boca, contínua a triturá-las ainda mais.

DE NOVO EM CHRISTMNSTER

 

Quando chegaram, a estação estava muito animada. Rapazes de chapéu de palha esperavam moças que com eles tinham notável semelhança e usavam alegres e claros vestidos de verão.

- O lugar parece alegre – disse Sue. – É o dia das Comemorações!... Judas... como você é esperto... Chegou neste dia de propósito!

- Cheguei – disse Judas calmamente, tomando o menino mais moço nos braços e recomendando ao filho de Arabela que não se afastasse deles, enquanto Sue tomava conta da menina mais velha. – Pensei que pudéssemos chegar hoje, tão bem quanto em outro qualquer dia.

- Mas, tenho medo que isso deprima você! – disse Sue, olhando-o ansiosamente dos pés à cabeça.

- Ah! É preciso não deixar que isso interfira na nossa vida. Temos muito que fazer antes de nos instalarmos aqui. E, antes de mais nada, precisamos procurar alojamento.

            Tendo deixado a bagagem e as ferramentas na estação, foram a pé pela rua que lhes era tão familiar, misturados com a multidão que seguia na mesma direção. Na esquina dos Quatros Caminhos, preparavam-se para tomar o lado onde havia probabilidades de encontrar o que procuravam, quando, olhando o relógio e a multidão que se apressava, Judas disse:

            - Vamos ver a procissão. E não nos preocupemos com o alojamento. Cuidaremos disso depois.

            - Você não acha que deveríamos primeiro tratar de arranjar um teto? – sugeriu Sue.

            - Contudo, Judas estava com o espírito na comemoração. Desceram a rua principal, o bebê nos braços de Judas, Sue segurando pela mão a meninazinha, enquanto o filho de Arabela seguia silenciosamente ao lado deles, com ar pensativo. Grupos de meninas bonitas, usando vestidos leves, e grupos de pais ignorantes que não haviam cursado nenhum colégio em sua juventude, seguiam na mesma direção, ladeados por irmãos ou filhos, cujas expressões revelavam nitidamente a opinião de que nenhum ser digno do nome de homem tinha jamais vivido neste mundo antes deles o terem vindo adornar com suas presenças.

            - Meu fracasso pesa sobre mim à vista de cada um desses jovens – disse Judas. – Uma lição sobre a presunção me esperava hoje aqui! É um dia de humilhação para mim!... Se você, minha querida Sue, não tivesse vindo em meu socorro, teria ido para o diabo, por desespero!

            - Sue viu, pela expressão de Judas, que ele estava numa terrível disposição de espírito.

            - Melhor seria que nos tivéssemos ocupado logo de nossos afazeres, querido – disse Sue. – Tenho certeza que esse espetáculo despertará em você velhas tristezas e não lhe fará nenhum bem.

            - Bem, estamos perto, vamos cuidar disso agora – disse Judas.

            Viraram à esquerda da igreja de pórtico italiano, cujas colunas torsas eram guarnecidas por trepadeiras, e continuaram até que chegaram diante do teatro circular onde se encontrava o famoso lanternim: símbolo, para Judas, das suas ambições abandonadas. Era ali que tinha contemplado a cidade dos Colégios, na tarde de sua grande meditação. Era aí que tinha ficado enfim convencido da futilidade de suas esperanças de ser um filho da Universidade.

            Naquele dia, no espaço livre que se estendia entre esse monumento e o colégio mais próximo, comprimia-se, em expectativa, uma multidão numerosa. Uma passagem havia sido reservado, no centro, entre a porta do colégio e a do grande edifício do teatro.

           - É aqui o lugar. Vão passar já – gritou Judas de repente, muito excitado.

             Forçando caminho, chegou até a grade, tendo sempre o menino nos braços. Sue e as outras crianças o seguiam. A multidão se fechou atrás deles, conversando, brincando, rindo, enquanto os carros, um após outro, paravam diante da pequena porta do colégio e deles desciam personagens solenes, vestidos de vermelho cor de sangue.

            O céu se tornara nublado e lívido e, de quando em quando. Ouvia-se o trovão.

            O Pequeno Pai do Tempo teve um arrepio.

            - Dir-se-ia o dia do julgamento final – murmurou ele.

            - São apenas eruditos Doutores – Disse Sue.

            Enquanto esperavam, grandes pingos de chuva caíam sobre suas cabeças e ombros. A espera se tornava enfadonha e Sue pediu mais uma vez para partir.

            - Não tardará muito, agora – respondeu Judas, sem voltar a cabeça.

            Contudo, a procissão continuava a não aparecer e alguém, na multidão, para passar o tempo, olhando a fachada do colégio mais próximo, disse que gostaria de saber o que queriam dizer com a inscrição latina que se encontrava no meio da parede. Judas, que estava perto, explicou. E percebendo que todos à volta dele o ouviam com interesse, começou a descrever as esculturas da frisa e a comentar alguns detalhes de arquitetura dos outros colégios da cidade.

            A multidão de desocupados, inclusive os dois policiais que guardavam as portas, arregalavam os olhos, tal como os Licaonianos diante de S. Paulo, posto que Judas facilmente se entusiasmava com qualquer assunto. Pareciam admirados pelo fato daquele estrangeiro conhecer melhor que eles os edifícios da cidade. Por fim, um deles disse:

            - Mas, eu conheço esse homem. Trabalhava aqui há muitos anos. Seu nome é Judas Fawley. Vocês não se lembram que lhe tinham dado o apelido de Pregador dos Miseráveis? Não se lembram? Tinha idéias nesse sentido. Ao que suponho, está casado e é o filho que carrega nos braços. Taylor o reconhecerá, ele que conhece todo mundo.

            Quem falava era um homem que se chamava Jack Stagg. Tinha trabalhado com Judas, restaurando colégios antigos. Tinker Taylor estava por perto. Essas palavras atraíram sua atenção. Gritou por cima da grade:

            - Sentimos-nos muito honrados em recebê-lo, meu amigo! Judas fez um sinal com a cabeça.

            - Você não parece ter lucrado muito saindo daqui, não? Judas teve um gesto de assentimento.

            - A não ser novas bocas para nutrir. – Isso foi dito por uma nova voz que Judas reconheceu como a do Tio Joe, um outro pedreiro de que se lembrava.

            Retrucou com bom humor que não podia dizer o contrário. E, de réplica, estabeleceu-se uma conversa geral entre ele a multidão. Tinker Taylor lhe perguntou se se lembrava de uma noite, no “cabaret”, durante a qual tinha sido desafiado a recitar o Credo em latim.

            - Mas a fortuna não se encontrava no seu caminho, não? – interveio Joe. – Você não era bastante forte para chegar ao fim, não?

            - Não responda mais nada – suplicou Sue.

            - Acho que não gosto de Christminster – murmurou tristemente o Pequeno Pai do Tempo, invisível e abafado pela multidão circunvizinhante.

            Sentido-se alvo de toda aquela gente curiosa e pilheriante, Judas não se achava disposto a recuar diante de uma declaração franca de que não tinha a menor razão de se sentir envergonhado. E, pouco depois, sentiu-se impelido a dizer, com voz forte aos que o escutavam:

            - é um problema difícil, amigos, para todos os jovens... problemas ao qual me atirei e sobre o qual milhares de outros refletem atualmente, nestes tempos novos. Deve cada um seguir cegamente o caminho em que se acha, sem considerar seus dotes pessoais, ou deve, pelo contrário, pesar as aptidões, as preferências que possa ter, e mudar a direção de sua vida? Foi o que tentei fazer e fracassei. Mas, não admito que o meu fracasso valha como prova de que estava errado, do mesmo modo como não admitiria que o sucesso justificasse o bem-fundado do meu ponto de vista. E é assim, entretanto, que, muitas vezes, julgamos os esforços, não pelo seu valor essencial, mas pelo seu resultado acidental. Se me tivesse tornado um desses senhores vestidos de vermelho e preto que estamos vendo descer, ali, todos diriam: “vejam como este homem agiu sabiamente, seguindo o pendor de sua natureza!” Mas, não tendo acabado melhor do que comecei, dizem: “Vejam como este homem agiu estupidamente, seguindo um capricho de sua imaginação!” No Entanto, foi minha pobreza e não a minha vontade quem determinou a minha derrota. São precisas duas ou três gerações para fazer o que eu tentei fazer em uma só. Meus instintos, minhas paixões, talvez devesse dizer: meus vícios, eram fortes demais para não obstruir o caminho de um homem sem recursos. Precisaria ter um sangue de peixe e um egoísmo de porco para ter realmente uma probabilidade de me tornar um homem importante! Vocês podem me ridicularizar – permito que o façam. – Presto-me bem a isso, não há dúvida. Mas, creio que se soubessem de tudo por que passei, nesses últimos anos, vocês teriam, antes pena de mim. E se eles soubessem – indicava com um gesto de cabeça o colégio onde Doutores estavam chegando – fariam possivelmente o mesmo.

            - Realmente ele tem um ar doente e exausto – disse uma mulher.

            O rosto de Sue exprimia a sua emoção. Mas embora estivesse ao lado de Judas, ficava escondida por ele.

            - Talvez eu seja útil, antes de morrer, como um terrível exemplo do que não se deve fazer, uma espécie de ilustração de uma história edificante – continuou Judas, não sem certo amargor, se bem que tivesse começado da falar com serenidade. – Não sou, afinal de contas, senão uma desprezível vítima desse espírito de inquietude moral e social que faz tantos desgraçados na nossa época.

            - Não lhes diga isso – murmurou Sue, com lágrimas nos olhos, compreendendo o estado de espírito de Judas – Não é isso o que você é. Você lutou nobremente para se instruir e só almas muito baixas poderiam censurar isso.

            Judas mudou a criança para uma posição mais cômoda, nos braços, e conclui:

            - E o que vocês vêem, um homem pobre e doente, não é o que há de pior em mim. Estou num caos moral. Procurando às apalpadelas, no escuro. Agindo por instinto e sem modelo algum. Há oito ou nove anos atrás, quando aqui vim pela primeira vez, tinha um perfeito stock de opiniões estabelecidas, que foram caindo, uma a uma. E, quanto mais caminho menos me sinto seguro. Pergunto-me se, presentemente, tenho outra regra de vida a não ser a de seguir pendores que não sejam nocivos nem a mim nem aos outros, e fazer prazer às pessoas de quem gosto. Aí está, senhores: queríeis saber o que eu me tinha tornado, disso tudo. Possa isso vos ser útil! Não posso me explicar mais longamente, aqui. Percebo que deve haver qualquer coisa de errado nas nossas fórmulas sociais: para descobri-lo, haveria necessidade de homens ou mulheres mais clarividentes do que eu – se é que alguém o possa fazer, em nossos dias. Porque que é quem sabe o que é bom para o homem neste mundo? E quem pode dizer a um homem o que haverá, depois dele, debaixo do sol?

            - Escutem, escutem! – gritava o povo.

            - Bom sermão! – disse Tinker Taylor. E, dirigindo-se a seus vizinhos:

            - Certamente que um desses pastores que andam por toda a parte, oficiando quando os Reverendos estão de férias, não teria discursado sobre tantas questões de doutrina por menos de uma guinea. Não acham? Aposto que nenhum! E ainda, teriam tido de preparar o sermão. E, no entanto, ele não é senão um operário!

          Como uma espécie de comentário objetivo ao discurso de Judas, chegou neste momento, um carro conduzindo um Doutor, pomposamente vestido e ofegante. Como o cavalo não parasse no lugar oportuno, saltou do carro e caminhou até o Colégio. O cocheiro pulou no chão e pôs-se da dar ponta-pés na barriga do animal.

            - Se se pode fazer isso no portão de um Colégio – disse Judas – na própria cidade da Religião de da Instrução, quem poderá dizer até que ponto chegamos.

            - Silêncio! – disse um dos policiais que, junto com seu companheiro, acabara de abrir as duas grandes portas defrontes ao colégio. – cale-se, homem, durante o desfile do cortejo.

            A chuva começou a cair com mais força, e todos os que tinham guarda-chuvas, os abriram. Judas não possuía nenhum e Sue, apenas um pequeno guarda-sol. Esta última tinha empalidecido muito, sem que Judas o tivesse notado.

            - Partamos, Judas querido – murmurou, tentando abrigá-lo. – Não temos ainda alojamento e todas as nossas coisas estão na estação. De mais a mais, você está todo molhado, tenho medo que fique doente!

            - Estão chegando, agora. Só um momento e, depois, iremos embora – disse.

            Um carrilhão de seis sinos começou a tocar, cabeças aparecem em todas as janelas e o cortejo dos Provedores e dos novos Doutores começou a desfilar. Suas silhuetas, vestidas de preto e vermelho, passavam no campo de visão de Judas como planetas inacessíveis diante de uma objetiva.

            A medida que desfilavam, pessoas bem informadas iam dizendo-lhes os nomes, e, quando atingiram o velho teatro circular de Wren, levantaram-se vivas aclamações.

            - vamos até lá! – exclamou Judas.

            Chovia agora torrencialmente, mas ele parecia não perceber nada e arrastava os seus para o lado do teatro. Ficaram ali, em pé sobre a palha que tinha sido posta para abafar o ranger das rodas. Os bustos de pedra, pálidos e estranhos, corroídos pelas geadas, pareciam contemplar a cerimônia e olhar particularmente Judas, Sue e as crianças, encharcadas, como se fossem personagens grotescas que nada tivessem que fazer ali.

            Queria tanto entrar! – disse Judas com fervor. – Espere: daqui posso ouvir algumas palavras do discurso em latim: as janelas estão abertas.

            Todavia, com o barulho do órgão, os gritos e as hurras que acompanhavam cada discurso, Judas, molhado, não pode ouvir grande coisa. Mal distinguia, de vez em quando, uma palavra sonora terminada em um ou ibus.

            - Ah! Ficarei sempre de fora, até o fim de minha vida! – disse, por fim suspirando.

 

                          THOMAS HARDY – JUDAS, O OBSCURO – ED. ITATIAIA, 1958, PAG. 319-325

Adoro este poema, ele é para mim uma ferramenta fundamental, para entendimento da psicologia, como uma profissão voltada para a compreensão do humano, sem significar a morte existencial daqueles que buscam nela auxílio, em função da análise. Engana-se, quem achar que ele foi apresentado, dentro de um curso de psicologia. Não foi e jamais seria, por causa da limitação teórica e o excesso na valorização da técnica. O que carrego de mais essencial e qualitativo desta profissão, foi aprendido com um professor de Literatura. A Literatura e o Professor, como não amá-los!!!

A MOSCA AZUL


Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.


E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua - melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.


Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
- "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?"


Então ela, voando e revoando, disse:
- "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".


E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.


Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.


Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.


Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.


Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.


Vinha a glória depois; - quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.


Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.


Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.


Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.


Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.


Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.


Hoje quando ele aí sai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.

Machado de Assis

BONFIM

Perambulando
pelas elevações da Padre Eustáquio,
meu olhar encontra-se
com uma paisagem.
A mim escondida,
do outro lado do cume.

E, num horizonte montanhoso,
diversas catacumbas
enegrecem o meu olhar.

E, aquela palavra solta
nas minhas idéias,
cola-se em seu referente: Bonfim.

AS PARCAS

Deusas tecelãs do meu destino,
por que o tornaste tão repetitivo?
Por que o teceis com linhas tão cruas,
tão ásperas, tão difíceis de serem rompidas?

Ele deveria ser fiado com  linhas tênues.
para, com uma simples brisa,
ser rompido.

 Com a leveza do vôo das aves,
sem deixar nenhuma marca,
sem nenhum esforço,
para sempre seria cortado.

O LOUCO

Quando os meus olhos,
se encontram com os teus,
Que vontade tenho
de te abraçar.

Tu és especial,
saíste dos limites que me dominam.
Tenho pena de mim,
diante de ti.

Tu te embriagaste de vida.
Eu cato as migalhas que deixam.

Estás tão próximo da verdade.
Enquanto eu,
eu fujo dela,
todos os dias.

A normalidade?
É um amontoado de mentiras.
Pois também somos loucos,
loucos disciplinados.

"Eu não acredito em nenhum valor de ordem política, filosófica, social ou religiosa. Acho a vida uma experiência que tem de ser vivida e se esgota, termina. Depois disso, mais nada."

Carlos Drummond de Andrade

O OLHAR

Tens o brilho da dor,
a beleza das flores no sepulcro.

Neles vejo um abismo,
tempestuosos dias cinzentos.

Carregam a miséria dos séculos.
Insuportável apreende-lo.

Sem Nome - Leda Mar

Eu amo a literatura. Ela é perfeita. Ler um poema como este do Drummond, que te deixa em estado de êxtase, é um dos motivos pelos quais vale a pena continuar vivendo o dilema humano. Em seguida, um artigo maravilhoso, sobre o poema.

LIBERDADE

Carlos Drummond de Andrade

O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.

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