
A BATALHA
Quando levantares tuas armas
contra meu corpo,
não lutarei.
Na nevasca angustiante de Kurosawa,
tu perdeste,
mas comigo tu vencerás.
Contigo não usarei jogar xadrez
em troca de alguns anos.
Ao contrário de Bergman,
entre a vida e a morte
escolherei a morte,
pois viver é morrer um pouco a cada dia.
Tu sempre venceste os que jogam para viver...
Quando enviares o corvo de Allan Poe,
não perderei tempo com indagações ao emissário.
Abrirei a porta e aceitarei a sentença.
De que servirá fazer anamnese
entre meus últimos suspiros,
se de tudo que vier a descobrir
nada levarei?
Se o relógio do meu tempo
perderá os ponteiros?
Se a vida que pulsa no meu corpo
lentamente sucumbirá?
Pensar sobre os sentimentos humanos é uma das tarefas que são exercidas de maneira competente por alguns poucos pensadores, cientistas, poetas e romancistas. È o que se pode confirmar lendo a entrevista do neurocientista Antônio Damásio dada ao jornal "Folha de São Paulo" (03/05/04 - A12) em que ele apresenta idéias interessantes, em cima de suas pesquisas, sobre os mecanismos cerebrais dos sentimentos.
Damásio afirma que "os sentimentos não passam de noções que o cérebro cria sobre e estado do corpo. Longe de serem abstrações, são fenômenos fisiológicos bem definidos e fundamentais tanta a sobrevivência, quanto à construção da razão". Essas afirmações podem decepcionar os que têm um visão romanceada dos sentimentos expressos pelos seres humanos, que muitas vezes são intraduzíveis pela linguagem e se expressam apenas como "traço", termo utilizado por Freud em carta a Fliess, intitulada "carta 52" quando esboçava a sua teoria sobre o inconsciente.
Segundo Damásio, estados de espirito como tristeza, orgulho, empatia e amor são manifestações de um mecanismo biológico responsável pelo equilíbrio geral do organismo (a homeostase). E que o amor romântico seria em parte uma invenção social elaborada a partir de um sentimento básico: a atração sexual. Essa declarações são interessantes, pelo fato de estar nelas implícito que a cultura é a grande transfiguradora da realidade, ela falsifica os desejos instintivos do homem e os transforma em aparatos artificiais. Daí a grande genialidade de Freud que, mesmo sem os recursos tecnológicos disponíveis nos dias de hoje e com uma linguagem menos biológica, já afirma em seus escritos, principalmente no "Mal estar da Civilização", que a tragédia humana está em vivenciar o antagonismo irremediável entre as exigência do instinto e as restrições da civilização e, para tapear essas exigências, criar acordos artificiais como: amor, religião, casamento, que são causas de angústias no homem.
Esclarecendo melhor sobre o amor ser uma construção cultural, e o real sentimento ser a atração sexual, Damásio relata que "a atração sexual, que é totalmente corporal, mas que também há certos estados emocionais que tem a ver com dedicação ao outro, compaixão e um serie de outras emoções de tipo social que estão ainda relacionada com o corpo e transmitidas pela evolução como uma regulação biológica".
Quanto aos sentimentos mal adaptativos, os que levam a agressão e violência, zanga, orgulho, desprezo são sentimentos extremamente negativos, que têm uma raiz evolutiva muito antiga. Eram úteis quando a organização social era muito simples e hoje podem ser nefastos.
Essencialmente podemos observar muito em comum nas idéias de Damásio e de Freud, evidentemente fazendo algumas ressalvas entre os dois. O primeiro, busca maneiras de entender como o cérebro reage quando alguém expressa determinados sentimentos, em busca de um controle químico para eles. O segundo, procurava organizar uma forma trazer á consciência as causas dos conflitos humanos e prevendo que chegaria um dia em que talvez esses antagonismos, entre o instinto e a cultura, pudessem ser resolvidos também com medicamentos.
"Quando tivermos um conhecimento detalhado do cérebro, é possível que esse controle químico seja melhor. Mas o problema continuará sendo cultural, porque a forma como esse controle químico pode ser utilizado é extremamente problemática. Por exemplo, você não vai querer que esse controle químico esteja nas mãos do poder político. Se ainda dermos mais armas aos que já nos controlam pelas idéias, estamos mesmo perdidos"
Antônio Damásio
"Não se deve tentar erradicar os complexos da pessoa, mas sim, entrar em acordo com eles".
Sigmund Freud
O FILHO DO VENTO
Nosbório é um garoto que vive no céu, viajando na imaginação. O seu passaporte são papagaios e pipas, que ele mesmo cria, dando formas geométricas a estes frágeis pássaros.
Junto com eles, Nosbório alcança mundos, sonhos, pesadelos perversos, brinca com o bailar do vento, mergulhando como uma águia sobre o céu azul, inventando maneiras de viver, nesta imensidão de sentidos escuros da sua tão curta vida.
Faz algumas manhãs, Nosbório descobriu de forma avalanchadora que seu pai não era mais seu pai, ou melhor, ele não trazia em seu pequeno corpinho os mesmos caracteres que dariam a legitimidade de ser o filho daquele homem tão amado e temido. Em poucos minutos, Nosbório percebeu-se jorrando sobre o tapete, desmontando-se. A sua alma chorou e afogou em lágrimas que explodiam de seus olhos e enfim, ficou como as estrelas do céu, destroçada e estilhaçada.
O tempo que resta de sua existência, talvez não seja o suficiente para o conserto. Passará a vida se cortando nos cacos. A descoberta desta manhã será a chaga de sua vida.
Os lapsos de pensamento que foram aparecendo em sua cabecinha – que estava como um pântano frio e gelado – eram sufocantes.
Nosbório como outras crianças ama as interrogações. Ele apesar de tudo, ainda é um desconhecedor do mundo, a própria esfera humana é o motor do desejo de escavar a arqueologia da vida, por pior que ela seja, mas está descoberta, ele preferia que ela não estivesse batido em sua alma e entrado sem ser convidada em seu espírito Brâmane.
Era muita dor perceber os horrores da vida, antes de ter forças para suportá-los. Os mundos em que visitou, com seus frágeis pássaros, não existiam maneiras tão cruéis de conceber a vida.
Quero pegar o seu cavalo,
e cavalgar
entre os famintos,
entre a guerra imperialista,
entre os massacrados na palestina,
entre os injustiçados de meu país,
e enlouquecer.
Vendo um mundo melhor, através da loucura.
A um bruxo, com amor
Carlos Drummond de Andrade
Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.
Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.
Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.
E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?
O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
a parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?
Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.
Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.
Este blog é fundamentado na visão do personagem do escritor inglês Thomas Hardy, de grande impacto dramático; trata-se do Pequeno Pai Tempo, filho de Judas, um homem sonhador, e da terrivelmente pragmática Arabella.
Essa criança, a qual não foi dado um nome de batismo - pois, se "morresse em estado de danação, isso faria com que se poupasse o dinheiro de um enterro cristão" -, sofreu na carne a pior de todas as desgraças: a rejeição pela mãe. Por isso, tendo conhecido os horrores da vida antes mesmo de desenvolver forças para suportá-los, o Pequeno Pai Tempo alimentou em sua alma um desejo de não viver.
Tornou-se, então, um menino estranho, ou melhor, um pequeno estrangeiro no mundo; pois "as crianças principiam prestando atenção aos detalhes, depois é que aprendem a considerar o geral. Começam com o que os rodeia, para depois, gradualmente, atingirem o universal. O Pequeno Pai Tempo, ao contrário, parecia ter começado pelas generalidades da vida, sem nunca se ter preocupado com os detalhes.
As casas, os chorões, os campos obscuros não eram olhados por ele como residências de tijolos, árvores, campos, mas como formas abstratas de moradia humana, de vegetação, ou o vasto e sombrio universo.
Quando, já sob a guarda do pai e da sua nova companheira Sue - com a qual Judas teve dois filhos -, mudou-se com estes para a cidade de Christminster, lá experimentou de novo a rejeição, desta vez porque a dona da pensão, sob ordem do marido, não aceitara as crianças em seu alojamento por mais de uma noite (elas podiam sujar com pontapés a entrada e as escadas, que haviam sido recentemente pintadas). Tomado de um "horror irracional", e aproveitando-se de uma breve ausência do casal, o Pequeno Pai Tempo enforcou as duas crianças menores e depois a si próprio, tendo antes deixado um bilhete onde havia escrito: "Feito porque éramos muitos demais."
SAÍNDO DA CAVERNA
Até alguns anos atrás eu vivia presa no fundo de uma caverna, imobilizada pelas correntes que me atavam, a olhar sempre para a parede em minha frente. Enxergava apenas as sombras dos objetos, que alguns prisioneiros carregavam para lá e para cá, sobre suas cabeças: estatuetas de homens, de animais, vasos, bacias e outros objetos. Estas sombras surgiam e se desfaziam diante de mim. Acreditava que as imagens fantasmagóricas que apareciam diante de meus olhos eram verdadeiras, tomava esses espectros pela realidade. A minha existência era inteiramente dominada pela ignorância. Estava condicionada pelo lusco-fusco da caverna, crendo, iludida que as sombras eram realidade.
Entretanto um dia, um Sábio, de uma das mais sublimes artes: a literatura, entrou dentro da caverna e libertou esta pobre diaba de sua pesarosa ignorância e me levou com todo o cuidado para longe daquela caverna.
Num primeiro momento, quando cheguei do lado de fora, nada enxerguei, os meus olhos doíam pela extrema luminosidade do sol. Mas depois, comecei a desvendar aos poucos, com a ajuda daquele Sábio, as manchas e as imagens. Hoje sei que é doloroso chegar ao conhecimento e que tenho que percorrer caminhos bem definidos para alcançá-lo. Sendo preciso, que eu a todo instante rompa a inércia da minha ignorância e isso, requer muitos sacrifícios.
Ainda me encontro, na primeira etapa que passa os que saem da caverna. Não consigo captar na totalidade a realidade. Vejo apenas algo impressionista flutuar na minha frente, mas persisto com um olhar inquisidor, na tentativa de ver o objeto na sua integralidade, com os seus perfis bem definidos. Na tentativa de atingir o conhecimento, de ficar extasiada ao me deparar com um outro mundo, totalmente oposto ao do subterrâneo em que fui criada.
Desejo que o universo da ciência; das artes, principalmente a literatura e do conhecimento geral se escancarem perante a mim, para que eu possa então vislumbrar com o mundo das formas perfeitas.
Não quero mais pertencer ao território do homem comum, presa às coisas do cotidiano. Prefiro ser hostilizada por eles, que não acreditem em mim, que imaginem ser eu uma excêntrica, uma extravagante, uma retardada. Formas estas, que são tratados aos que saem da caverna e tentam dizer o que descobriram fora dela.
SEBASTIANA
Augusta,
Magnífica,
Venerável.
Sebastiana ficou zanzando
bem no meio da rua.
O carro quase a derrubou,
e ela não viu.
Que embriaguez!
O motorista disse um palavrão,
e ela não ouviu.
- Eh! Mamãe! Vem prá dentro.
Grito de filho até mãe tonta escuta.
Foi-se chegando devagarinho,
tropeçando entre os pés,
corpo cai, não cai.
Andava atrás de um Ser Nada:
o descanso eterno.
o retorno ao inorgânico.
Até que um dia, parada em seu portão, o viu passar.
Sebastiana saiu correndo,
foi parar no meio da rua.
Antes de alcançar o Ser Nada, um carro a pegou.
Pegou e matou!
Saíam correndo assustados do portão os filhos dela.
Horrorizados.
A vizinhança espalhou a notícia no bairro.
- Sabe a Sebastiana?
- Que Sebastiana?
- A bêbada.
- Que é que tem?
- Amassou o carro!
Está é a minha forma de dizer-te adeus.
OS MARGINALIZADOS
Em uma tarde chuvosa, entrava na vida de Pedro, um novo personagem, no início ouvia apenas a sua insistente voz, suave, perturbadora, dizendo-o, que era necessário consertar a história, pois ele era O Pedro, e alguém tinha lhe deixado está missão, que não estava cumprindo. Depois passou a vê-lo, um homem triste, desolado, e que parecia precisar de cuidado, ou melhor carecia de amor. E agora não pedia, suplicava que Pedro consertasse, este deserto, que esta sendo construído pelos homens, depois de mais de vinte séculos, após a sua morte. E o homem aos soluços falava, " eu não fui crucificado por nada Pedro!!!
Em meios, aos delírios, Pedro respondia atormentado:
_ Quer que eu conserte este mundo? imundo?
Neste momento, uma senhora entrava, assustada na biblioteca, em que se encontrava Pedro esbravejando com a cortina, tentava acalmá-lo, enquanto ele continuava dizendo:
_ Ninguém liga para a sua morte, não! Você, meu caro, é agora mercadoria, ouviu? Você faz parte da lógica neo - liberal, que subordina os países que estão em sua maioria, abaixo da linha do Equador, uma linha imaginaria que divide o mundo entre os que são desenvolvidos e os que estão em desenvolvimento, para o caos, à barbárie do mercado em estado puro. Usam as suas belas palavras, nas bolsas de valores, lá é a sua nova igreja. Foi lá que edificaram a sua palavra. Você é uma droga, um entorpecente que eles usam para domar a massa, preciso dizer, que isso interessa, antes de tudo, aos que tem governado e continuam a governar os países, mesmos antes de serem considerados Estados, os representantes da burguesia, do clero, da nobreza os que enriquecem brutalmente com os juros, com a exploração do trabalho, a expropriação de terra, a escravidão, o uso do poder, da ditadura, e tem levado os homens, pelos quais você morreu, para salvá-los, à situação em que estão.
_ Mas Pedro, o que eu tentei foi expressar o que falta aos homens de todos os tempos, o amor, a igualdade e a solidariedade, para lembrá-los de nossa finitude e de que a nossa função é passar a tocha para o futuro, que carece de um mundo melhor do que aquele que recebemos.
_ Eu nunca consegui entender porque os homens fazem guerras. Porque matam pessoas sem ter nunca conhecido antes. Porque pessoas aceitam em ir para a guerra, apesar de saberem que a maioria não voltará viva. Isso tudo me enlouquece.
_ E o que você é Pedro, senão um homem cheio de contradições?
_ O que eu sou! Uma matéria solta no universo, perdida, uma anomalia, um desvio da natureza. A cada rodopiar desta bola de nitrogênio, carbono e oxigênio, esta matéria fica mais sozinha. É tão difícil não pertencer a este mundo confuso e triste, criado por seu Pai. É insuportável. Sou uma matéria tão minúscula, em meio a tantas matérias minúsculas, que se degradeiam entre si. Quase todo o contato entre os homens é uma guerra. Você sabia?! Vivem tão confusos entre o amor e o ódio que preferem a destruição. É a fagocitose social, porém destrutiva. E eu grito socorro em meio a treva espessa, e eu só ouço e meu próprio eco.
_ E o que busca?
_ Desesperadamente a morte, que está demorando tanto a chegar.
_ E se eu te disser que a morte não existe?
_ Estarei ciente, que você tenta me enganar.
_ Não te engano! A morte para o homem é o medo, é uma tentativa de esquivar daquilo que ele faz parte. Vocês sofrem, se degradeiam, porque vocês não aceitam fazer parte do caos que é o universo. Inventam religiões, ciências, deuses, porque tentam colocar ordem em tudo. Não é possível para vocês separar o joio do trigo. Mas vocês são teimosos. Criaram a morte, porque têm medo de voltar para o ciclo da natureza, de mínima interferência no fluxo natural do universo.
_ Mas eu não tenho medo!
_ Tem sim! Não tem coragem de se matar. Se o mundo criado por Deus, como você diz, é tão insuportável para você. Porque esperar que a natureza exerça o seu papel. Vá! Interfira nisso também.
_ Para por favor, estou sentindo muito frio. Esta sentindo, o silêncio da noite? Nos apavora e nos alivia ao mesmo tempo.
_ Ninguém te agrada neste mundo? Tu, vê amor em algum lugar?
_ Alguns eu amo, raramente vejo amor nas relações humanas, mas logo que alguém percebe isso, mandam essas figuras logo para a cruz ou as internam em manicômios. A grande maioria das pessoas não deixam que ninguém se aproximem delas. Esquivam de qualquer contato, agridem, se sentem o color de um corpo se aproximar. O afeto, é exercido de forma fantasiosa. A sua experiência é muito momentânea e ocorrem para alguns, três vezes em uma vida: o materno, quando bebê; o do namoro, no momento da idealização do encontro da alma perfeita e na morte, pelo sentimento de culpa dos que ficam, por não terem conseguido expressar o seu afeto, enquanto o moribundo estava vivo.
Viver o luto de nossos fracassos, realmente não é nada agradável. Mesmo sabendo, que é a partir do desprazer que evoluimos, na tentativa desesperada de voltarmos a sentir qualquer tipo de prazer. Que somos sujeitos de desejos, ou melhor, de falta. Porém quando o objeto de nossos desejos, nos é negado, em função de limitações que possuímos, somos obrigados em primeiro momento sofrer a perda, o luto que é a reavaliaçào dessas limitações, para novamente preparar a rede e voltarmos ao oceano, pois somos os grandes pescadores de ilusões. Ávidos de que o pequeno barco voltará cheio, saímos do luto pensando, dessa vez a maré estará a meu favor, sou muito especial e o mundo não seria o mesmo sem mim. Como somos uma eterna criança egocêntrica, e cheia de doces ilusões, vivemos no inferno e sonhamos o céu, que muitas vezes, são necessárias para suportamos o vazio que vivemos neste mundo.
Mundo, Mundo, tu és como Pedra, e é sobre esta pedra que morre um pouco, a cada dia, o que há de mais belo em mim.
Eu sou completamente agnóstica,
mas respeito, de igual forma,
a crença e a eventual necessidade de fé dos outros.
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