
CONTRADIÇÕES
Quando por circunstâncias da vida, somos obrigados a viver distante daqueles que amamos e confiamos, em ambientes hostis, nos tornando um estrangeiro em nossa própria existência, a saudade e talvez o medo, torna um cético, crente.
Essencialmente sou cética, ateísta e niilista. Caminho contra a formação religiosa em que fui criada. Vejo o medo nos olhos da minha mãe, quando lhe digo que não acredito em deus. Minha avó, que quando eu nasci, fez questão de me dar o nome da "Sagrada mãe de Deus", me excomungaria, apesar da sua bondade, ao ouvir-me blasfemar com o Santo Nome.
Mas, este ambiente religioso, vivido na minha infância, é no meu espírito literário. Nunca levei a sério (no sentido de ter fé), os rituais cultuados por minha avó, apenas, achava deliciosas as suas estórias, em que os personagens eram punidos, por não cumprirem as leis da tradição judaica – cristã. Por cometerem a híbris. Eram verdadeiras epopéias, sem heróis. Absorvi todas essas estórias, entre as de assombrações, lobisomem – contada, especialmente na quaresma – de animais selvagens e das festas de jubileu, com extremo prazer.
É evidente, que a intenção de minha avó, não era a de contar estórias. Ela, nem sabia o que era um personagem. Tentava apenas me educar, cuidar que eu fosse protegida e amada por aqueles seres ficcionais – santos católicos – que ela acreditava serem possuidores de poderes para isso, uma espécie de "deuses olímpicos".
E sem dúvida, de certa maneira ela tinha razão. Hoje eu sou protegida, pelo universo da literatura. O que me faz amar, a cada dia mais, o meu marido, é exatamente a sua capacidade de me deixar em estado de êxtase, pelas as suas magníficas divagações literárias. Todos os dias, sou presenteada com um céu estrelado, que ele vai me mostrando ao poucos. Ele fez, acalmar a tempestade que estava me enlouquecendo e talvez me matando.
No entanto, com este mundo religioso vivenciado na infância, que eu converti em literário, havia o empírico. Experimentado com muita intensidade. Cavava o solo, para ver a água brotar; abria com tal perícia as minhocas, com o único intuito, de descobrir o que fazia elas se movimentarem e terem vida se dentro daquela película, só havia barro; ficava dias acompanhando um ovo ser chocado, até que o pintinho quebrasse a casca e saísse para o mundo, já com tanta independência; escava os barrancos a procura dos temíveis escorpiões; desaparecia no meio do mato, das redondezas da casa da minha avó, observando o funcionamento da natureza; me encantando com a sua perfeição e com a sua lógica. E neste mundo me formei cética, ateísta e racionalista.
Embora, eu seja um ovelha desgarrada, não tenha tido fé, no sentido cristão, em uma época fui crente. Durante um período da minha infância e da adolescência, em que fiquei sozinha e distantes de meus pais e irmãos. Todas as noites, antes de dormir, pegava os dedos da minha mão esquerda, beijava um por um, nomeava-os com os nomes dos meus pais e irmãos, e só assim, depois do ritual e abraçada com àqueles dedos, conseguia adormecer.
Somos seres híbridos, temos a linhagem de espécies tão contraditórias. Por mais que tendamos a caminhar por um lado, às vezes somos surpreendidos, por idéias e comportamentos que acreditávamos não ser nossos.
O jornalista José Augusto conseguiu fazer uma excelente síntese, do que significou toda a política de Brizola neste país, tão carente de personalidades capazes de se sensibilizarem com a causa trabalhista. Apesar de toda a luta de Gétulio Vargas, Juscelino Kubitschek e Leonel Brizola vivemos numa escravidão, ajustada as mudanças históricas.
José Augusto Ribeiro
jornalista e escritor, autor de "A Era Vargas"
"O PT não é herdeiro porque não quis e não quer. É um erro histórico. Lembro de uma vez em que o Brizola teve conversas com o Willy Brandt, presidente da Internacional Socialista. 'Por que não juntam o seu partido com o PT?', perguntou Brandt. 'O PT representa uma elite operária do centro mais desenvolvido do Brasil, a Grande São Paulo. Os níveis de vida e de renda e de salário são comparados aos da Europa. Se a Alemanha parar a Volks, o governo arbitra. Se os sindicatos de São Paulo pararem as empresas de automóveis do Brasil, no dia seguinte há uma fila de migrantes procurando emprego. É um mundo de subemprego, subhabitação, subconsumo', respondeu Brizola. O Brizola quis ser o herdeiro de Getúlio Vargas. O Lula, infelizmente, não quis assumir esse papel. Até hoje, eles (o PT) associam a legislação trabalhista à carta del Lavoro, de inspiração fascista. É um despropósito atribuir influência da Carta del Lavoro à legislação trabalhista. Não é que o Brizola quisesse a herança do trabalhismo de Vargas só para ele. O PT é que não quis."

CAMARADA ESPERANÇA
Na suavidade da cegueira noturna,
Um barco se perde, mas é luz e se acendem
nas trevas estrelas que sangram meus olhos.
Novo exílio começa. Há uma rosa no cais.
Guindastes, roldanas, é pálida a flor,
sem mão que a sustente.
Neblinada rosa perdida
sonha corcéis que tragam a aurora
vermelha outra vez:
É noite, o dia vai renascer.
Teu barco, Brizola, tão longe nas trevas,
foi buscar novas cores no céu?
LIBERDADE
Te laçarei no vento,
te amarrarei no estábulo,
como se faz a um animal selvagem.
Sentirei a posse,
Serás prenda,
pássaro engaiolado.
Mas se és
inatingível,
estrela perdida,
Atégina implacável,
Netuno em fúria,
precisarei das correntes de Zeus.

A CRIATURA
Sou a merda da tuas entranhas.
Sou a tua indigência.
Sou o teu desumano.
Sou o teu sangue envenenado.
Sou o teu corpo putrificado.
Sou o verme que te consome.
Sou o teu pior pesadelo.
Sou o homem.
Belo Horizonte, 07 de Abril de 2004
Caro Marx,
Tenho pensado muito em você nestes tempos sombrios e sem esperança. E escrever-lhe esta carta é uma forma de compartilhar com você a transformação do espaço humano, político e social deste início de século.
No aspecto humano, não há nenhuma evolução, que possa ser considerada significativa. Você brilhantemente, propôs duas alternativas ao homem para viver em um mundo melhor: o trabalho criativo e o amor. O trabalho, moeda de troca do operário, é algo restrito a alguns poucos, os homens vem sendo substituído sistematicamente por máquinas, elas são mais baratas e não necessitam de direitos que o operariado internacional conquistou, em meio as lutas por melhores condições de trabalhos nos últimos séculos. Ocorreu uma verdadeira revolução, degradativa, nas condições de trabalho, a criação através do laboro, é algo que pouquíssimos conseguem realizar, grande parte da população incluída entre os que ainda conseguem vender sua força de trabalho, vivem como zumbis, verdadeiras marionete da revolução tecnológica, no máximo executam comandos de programas que já vêm feitos em série, por gigantes do setor tecnológico. O amor, o que é o amor? Em um mundo em que o outro não existe, em que foi aniquilado pela indiferença. O que prevalece nas relações humanas é a sedução, a posse, o poder, a perversidade. Na terra devastada, todos sofrem, mas a dor do outro, não é importante, todos tentam usar o outro para esquecer a seu próprio vazio.
Na economia , os dois grandes sistemas econômicos, filhos da modernidade: o capitalismo e o socialismo, nada mais são do que uma projeção da dicotomia humana para a esfera econômica. O capitalismo é o humano terreno. Traz consigo a selvageria, a multiplicidade, o individualismo, o pragmatismo e uma capacidade assustadora de se moldar às circunstâncias, sem prejudicar os seus interesses essenciais. O socialismo é o humano abstrato. É a utopia do homem de usufruir daquilo apenas que é necessário para viver uma vida comum, sem ficar pensando em acumular bens para diversas gerações que descenderão do seu núcleo familiar. A convergência de interesses tão dispares, faz com que o mundo econômico seja tão complicado e sem soluções.
No campo político, os trabalhadores meu amigo não se uniram, pelo contrário, se desintegraram e se ajustaram ao capitalismo financeiro. Alguns chegaram ao poder, como representantes da classe operária, dos menos favorecidos pela divisão da riqueza produzida, porém não representaram os ideais desta classe, utilizaram da demagogia, da ideologia como nenhum outro burguês na manipulação safada das massas. Os lideres sindicais utilizaram os sindicatos como trampolim para o poder. Ao assumirem o tão almejado posto, transformaram-se em uma classe que pensávamos ter enterrado nos escombros da Basílica francesa: A nobreza.
Nossos proletários quando assumem o poder político, passam a viver como os nobres do Palácio de Versalhes. Já oferecem tanto perigo para a burguesia (aquela que produz, mas que hoje não detém o capital, pois agora ele pertence ao capital financeiro) quanto os de outrora. Chego até a profetizar que será preciso a burguesia fazer uma outra revolução, antes que ela fique paralisada pela especulação financeira e os altos impostos, que mantêm a nova nobreza, cobrados nos países de economias em desenvolvimento.
Contudo, apesar de todas essas contingências, continuamos a lutar por um mundo melhor, mais desiludidos e talvez mais realista. É como se gritássemos, planfetássemos sem ninguém disposto a nos ouvir.
De teu companheiro,
Século XIX
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