CARTA AO COMPANHEIRO
por Ferréz
Qual que pá, o sol pode nascer por trás dos barracos, e temos a certeza de não haver esperança nem justiça.
O mano não queria carro com banco de couro, nem chegou a pensar em um dia ter avião, vixe! Moto Harley, nem pensar.
Para sua esposa, maquiagem nunca viu, nem salão de cabeleireiro famoso.
Não queria escola particular para os filhos, nem sonhava com promoção.
O que ele queria quando ateou fogo no próprio corpo em frente ao símbolo do poder era simplesmente ser atendido, o companheiro comprou a ilusão de que tinha um igual a ele no poder e vendeu o barraco que era a única coisa que tinha em nome dessa ilusão.
Essa tal ilusão é feita de muito boa forma, a fita é essa, um publicitário que nunca foi militante foi contratado para criar uma imagem, e tudo deu certo, o homem citado morreu há alguns dias, não resistiu às queimaduras, ou talvez não tenha resistido às mentiras.
Nessa semana, mais um desempregado tentou se matar, ficou parado na tubulação, os filhos vieram, o guarda o convenceu a repensar e, num ato de humanidade, o abraçou.
Sabe, meu truta, ele tinha barba também, não era cuidada e não era nem aparada, o rosto trazia o sofrimento verdadeiro de um povo inteiro.
Estranho mesmo nessa fita toda era que ele não era prestativo para o FMI, nem para os grandes empresários, pois sua mão-de-obra não valia mais nenhum salário.
Esse homem começou a morrer depois que perdeu o emprego.
Você me desculpa de tá falando assim, mas nada mudou aqui, e pior que não ter nada é perder a esperança de ser nada.
Meu companheiro! Segundo suas palavras, a Rede Globo era a representação da direita fascista, mas bastou alguns anos e seu terno estava tão alinhado no Jornal Nacional, agora ela é o quê? Esquerda light?
Eu sei que esse é o jogo, mas e quando vai ser nossa vez de jogar?
Eu agradeço, e isso tenho que reconhecer, o jeito que você me mostrou o mundo é impressionante, o esclarecimento de que os nossos iguais também são perigosos, e que mudar não é só uma característica do camaleão.
Somos nóis na fita, né? Fazê o que. Não me chame pra comissão, não sou hip-hop, não sou literatura marginal, nesse momento sou frustrado, sou insatisfeito, sou o enganado, sou povo brasileiro.
No geral da conversa, sou só um periférico registrando a dor do desemprego no gueto.
As palavras que Gog usou para FHC nunca foram tão atuais para você, companheiro.
– Ei, presidente, li um dos seus livros, um best-seller do socialismo, confissões, relatos sinceros, um defensor da foice e do martelo. Parecia, só parecia, deixou para trás a rebeldia pra assumir de vez a bandeira da covardia."
Cê tem que vê, nas favelas continua se matando, o fogo continua a consumir os barracos, as meninas de 12 continuam a engravidar e agora convivemos com o novo problema, a falta de esperança para promover a melhoria.
Quem precisa de ajuda é os homens que dormem em casas feitas com sacos de lixo, e isso acontece no Brasil, onde, de cada duas casas na periferia, uma é minicomércio, onde hoje homens tomam as vagas dos moleques em padarias, e os moleques vão catar latinha. E não precisa viajar o mundo inteiro para saber disso.
Meu companheiro, pior que viver no Afeganistão é viver na guerra não declarada, pior que os helicópteros jogando a comida no deserto depois das bombas é o trabalhador lutando todos os dias da sua vida pela mesma quantia de ração, pior que terrorista é a cocaína, o crack.
Todos somos um grito só, nem direita nem esquerda, apenas sobrevivência.
Em centenas de casos, talvez um se salve na Narcóticos Anônimos, quantos rezando para o senhor mandar lá do céu um alívio, acabar com mais um sofrimento do pobre filho.
Entre ONGs, Ocips, projetos, movimentos, empresários, instituições, institutos, quem está do lado certo da coisa?
Quem me garante a honestidade, se até Jesus Cristo morreu para virar franchising?
As palavras do meu companheiro são tão bonitas, no dia da posse eu quase chorei, os dizeres populares, o sofrimento compartilhado com milhões, mas saibam que, sofrer, uma pá de nós vem sofrendo, mas lembrar disso... ah! Aí já é outro caso, talvez pisar no carpete confortável tenha feito os pés não sentirem mais o barro.
Horário eleitoral anunciou, dobro do salário mínimo, melhoria geral, era para ser nossa vez, a realidade é essa, o povo conversa aqui na favela.
Agora, os que sugam o meu povo são seus amigos, os que mandaram a menina embora por tomar um danone na grande rede de supermercados andam lado a lado contigo.
Até o apresentador Ratinho se encontra contigo, te entrevista, passeia com você pelos jardins, e ele nem precisou atear fogo no próprio corpo para isso, pra você vê, né! Muda-se os donos, mas os porcos continuam os mesmos, ou talvez os olhos do dono são os que engordam os porcos, e, por falar em porcos, quando estava no final deste texto me lembrei do livro Revolução dos Bichos, quem não leu não perca tempo, é o retrato da nossa atual situação.
Fico orgulhoso quando esse governo nos chama para conversar, mas conversa não mata fome, e o tempo corre contra nós a cada dia.
Meu companheiro, na real dos fatos, só tenho um pedido como brasileiro, me faz estar errado, me faz me sentir mal por ter comentado isso tudo, de repente até pedir desculpas para você no final do mandato, pois aí seria a melhor desculpa da minha vida, pois o meu povo estaria um pouco melhor.
Ferréz é autor de Capão Pecado (Labortexto) e Manual Prático do Ódio (Objetiva)
Texto retirado da revista Caros Amigos.

VIOLAÇÃO
Acorrentado ao rochedo,
desde eras estou.
Num ciclo sem fim,
minha víscera é regenerada,
enquanto a minha criatura se degrada.
De alma oca,
a vejo vagar pelo mundo.
Enfurecida, tenta domar a phisis,
desertificando o universo.
Prolifera-se feito um câncer.
Caminha destruindo por metástase.
Faz tempo que tenho medo.
Em nenhum outro animal,
em nenhum deus,
vi um olhar tão assustador.
Fracassei como criador.
Cometi o excesso
de dar vida ao homem.

ESTRANHEZA
Perceber que os olhos
direcionados para as estrelas,
não é o presente que eles captam,
nem tampouco o futuro,
mas o passado longínquo;
luzes emitidas
antes da minha existência,
e que por puro acaso,
os meus olhos captaram,
essas mortas viajantes;
em segundos apreendo a morte,
há tantos anos luz.
Apurar a contundência do Nada
de que somos herdeiros
é assustador.
Seriamos o Nada,
mesmo se como estrelas
morrêssemos,
viajando em forma de luz,
no fluxo infinito do universo.
Somos um corpo opaco.
Somos filhos póstumos.
Morrer para o homem,
é uma sentença sem posteridade.
MOVIMENTO DA VIDA
velocidade
5
E4
T3
R2
O1
M tempo 1 2 3 4 5
O BEM E O MAL
Entender os acontecimentos que vivenciamos como agentes da história, é tão confuso. Não somos capazes de separar o joio do trigo. E a coruja de Minerva, só levanta vôo ao entardecer.
Quando voltamos ao passado, e nele vemos que o bem e o mal, quase sempre estão do mesmo lado, porém em proporções diferentes, em determinados momentos. Vemos que estas definições não são tão simplistas como desejamos, são complexas e requerem que não sejamos ingênuos. Não foi fácil para mim chegar a esta conclusão. Até pouco tempo, trazia em meu espírito, quando pensava sobre alguns acontecimentos históricos, bem definidos, os que eram mocinhos e os que eram bandidos: os aliados eram do bem! o eixo era do mal! E assim sucessivamente.
Ao tomar conhecimento, por exemplo, do que a Inglaterra fez em Dresden, no final da segunda guerra, deu-me a mesma sensação do operador de bordo da RAF, durante a destruição de Dresden, Roy Akehurst, "chocou-me naquele momento o pensamento de que mulheres e crianças estavam lá em baixo. Parecia que estávamos voando horas sobre um lençol de fogo - uma terrível fogueira vermelha, com um nevoeiro cinzento pairando sobre ela. Dei-me a comentar com a tripulação: 'Oh! Deus, esta pobre gente'. Aquilo foi completamente desnecessário. Você não pode justificá-lo." Ou quando os Soviéticos afundaram nas águas gelados do mar Báltico, o Wilhelm Gustloff, que carregava mais de nove mil civis - entre mulheres e crianças - que fugiam da invasão Russa, também no final da segunda guerra, apenas 996 sobreviveram. Então vemos, que afirmar que este é mocinho e aquele é bandido, não é tão simples assim.
Na época dizia-se que era merecido. Que os Alemães haviam-se portado do mesmo modo. Mas tanto um lado, quanto outro, vendo-os, após a coruja ter levantado o seu vôo, que cometeram grandes crimes com a humanidade. E o que é pior, pouco nos ensinaram.
Ter noção de que o bem e o mal, caminham juntos na história, nos deixa fragilizados diante da posição a tomar, em relação ao momento, quando somos agentes de nossa história. Entretanto, não se posicionar, com medo de errar e de apoiar, sem saber, a parte mais má que entrará para história, é ser indiferente. Como foi a classe média da democracia cristã italiana, que passara os anos da ditadura de Mussolini quietos e conformados, em "retiro interior". È mais digno os que entram para o inferno, do que aqueles que ficam no limo, como presenciaram Dante e Virgílio. Aqueles que passaram a vida em cima do muro, indiferentes perante aos acontecimentos históricos, não são dignos nem de entrar ao inferno.
ALGUNS DEPOIMENTOS HISTÓRICOS:
"Que vida tan desgraciada
Vida tan sim esperanza!
Com tantas revoluciones
Solo el que muere descansa"
(1835-1852)
"Eis aqui todo um sistema: o terror sobre o cidadão, para que abandone sua fortuna; o terror sobre o gaúcho, para que com o seu braço sustente uma causa que já não é sua; o terror supre a falta de atividade e trabalho para administrar, supre o entusiasmo, supre a estratégia, supre tudo. E não há o que espantar: o terror é um meio de governo que produz maiores resultados que o patriotismo e a espontaneidade. É verdade que degrada os homens, empobrece-os, arranca dos Estados o que poderiam dar em dez anos, mas o que importa tudo isso."
Domingo Faustino Sarmiento (Facundo, Civilização e Barbárie) - Porto Alegre, 1996 - pág. 176
"Existem tempos, jovem camarada, quando cada um de nós deve fazer alguma coisa pelo direito humano e pela justiça, ou você nunca mais se sentirá limpo."
Conam Doyle - Criador de Sherlock Holmes
UMA HISTÓRIA PARA SE TER ORGULHO:
BRASIL, PROCURA URGENTE UM CÁRDENAS!
Até 1934, praticamente nenhum barril de petróleo permanecia no México. O país não conseguia a sua verdadeira alforria econômica (era refém da coligação de empresas anglo-americanas, que exploravam o petróleo no país). Após uma série de medidas, procurando ampliar a sua base social, o então presidente mexicano, o General Lázaro Cárdenas, decretou no dia 18 de março de 1938, a estatização do petróleo. Assim ele fundou a PEMEX, a primeira grande empresa estatal do gênero na América Latina, uma precursora da PETROBRÁS. A notícia de tal medida, corajosíssima, eletrizou o país. E provocou a mais bela participação social de que tenho notícia, dos mais miseráveis ejidos, dos mais insignificantes pueblos, partiram delegações levando à capital seus parcos pertences par o fundo de indenização das empresas estrangeiras a serem expropriadas. Os pobres peones, herdeiros dos astecas, dos chichimecas, dos torascos, dos mixtecas, dos toltecas, dos zuñis, e de tantos outros, raparam seus magros cestos e reviraram os baús familiares para retirar deles o que viam ser de valor para entregar o EL JEFE. Era uma nação inteira, espontaneamente, em busca da redenção.

JOGADO AOS LEÕES
Como é desalentador ver um profissional das ciências humanas utilizar seus conhecimentos, adquiridos ao longo de vários anos, para rotular e diagnosticar como alcoólatra, sádico, megalomaníaco e paranóico um ser humano. Em cima apenas de material coletado na imprensa, em biografias e imagens de televisão. A ética foi jogada no lixo? O ser humano não é mais importante do que o espetáculo? Ter cinco minutos de fama ao preço da execração de uma pessoa é ser profissional?
A matéria prima da psicanálise é sem dúvida a palavra, é através desta que o analista poderá penetrar nas águas turvas em que se encontra mais que a ponta do iceberg do outro. No discurso manifesto é possível colher as reminiscências do discurso latente. É como se o analista tentasse captar a sinuosa sinfonia do vento em meio a um barulho ensurdecedor. Mas pegar a biografia de vários componentes da família Bush, notícias de jornais, documentários, programas de televisão e de rádio e fazer um diagnóstico do atual presidente dos USA, da maneira como o senhor Justin Frank o fez em seu livro "Bush on the couch" (Bush no divã), é mais do que irresponsabilidade, é a negação da subjetividade e da própria psicanálise.
Quando Freud utilizou a psicanálise aplicada para fazer o diagnóstico de Leonardo Da Vinci, Moisés e do Pequeno Hans, eram, os dois primeiros, personagens importantes da cultura ocidental, que não sofreriam com a divulgação das hipóteses levantadas sobre suas personalidades; quanto ao terceiro, ele teve o cuidado de usar um nome fictício. Além disto, foi a maneira encontrada por ele para mostrar como era aplicado o método psicanalítico. Tendo em vista as dificuldades para o ensino da nova ciência, apresentadas em seu livro "Introdução à Psicanálise", decorrentes de não se poder assistir a um tratamento psicanalítico, restava apenas, ao futuro profissional, aprender através do ouvir falar. Esta aprendizagem de segunda mão iria depender, em grande parte, de leituras e preleções, ou, então, do estudo da própria personalidade através da auto-análise ou daquela feita por um psicanalista. No caso da divulgação do estudo da personalidade de Da Vinci, de Moisés e do Pequeno Hans, era mais uma forma de oferecer material de estudo do processo analítico, elaborado por um grande mestre, sem a pretensão de uso para a destruição de nenhum dos analisados.
Volto agora a refletir sobre as fontes utilizadas pelo senhor Frank. O texto, ao ser escrito, fica muito diferente do que é falado e a imagem, ao ser editada, também sofre interferência, que distorce a imagem original. Para uma ciência em que a principal ferramenta de trabalho é a linguagem, tem que se estar ciente das armadilhas criadas por ela. É um terreno movediço, mesmo para um profissional, fazer diagnósticos com linguagens tão trabalhadas, envolvendo a vida de uma pessoa que tem repercussão mundial.
É como se Bush fosse jogado aos leões e a platéia, extasiada, assistissem à sua destruição. Mas esse não deve ser o papel da psicanálise e mesmo da psiquiatria. Parece, apesar de citá-lo, que o senhor Frank não leu Freud, já que uma de suas lições diz que o tratamento analítico não comporta mais que a troca de palavras entre paciente e psicanalista. Esta conversação, porém, não tolera ouvintes. As informações de que o analista precisa o paciente só as dará se sentir uma certa afinidade com ele. Pois estes dados se referem ao que há de mais íntimo na vida psíquica do paciente, a tudo que ele deve, como pessoa autônoma, ocultar aos outros e, enfim, a tudo o que não quer confessar a si mesmo.
Não concordo, como pessoa inserida em um mundo tão assustador, com as atitudes políticas de Bush, sustentadas por grande parte da população americana. Ele não teria feito, tudo o que fez, se não tivesse o apoio do povo norte-americano. Mesmo que ele tenha todos estes distúrbios, apresentados no livro, toda a barbárie que vemos foi compartilhada e aceita pela população. O fato da possível doença, neste caso, é secundário.
Também gostaria que ele não fosse reeleito, mas utilizar de meios tão esdrúxulos para derrotá-lo é covarde e desumano. A ciência e a pseudo-ciência já compactuaram com muitas barbáries na história. Temos a lição de quão doloroso foi isto para todos. Portanto, devemos lutar por uma ciência em prol do homem. E não contra ele, seja quem for.
Para pensar:
"As palavras faziam primitivamente parte da magia, e ainda hoje a palavra conserva muito de seu poder de outrora. Com palavras um homem pode tornar seu semelhante feliz ou levá-lo ao desespero, e é valendo-se de palavras que o mestre transmite seu saber aos discípulos, que um orador impressiona os ouvintes, determinando seus juízos e decisões. As palavras provocam emoções e constituem para os homens o meio geral de se influenciarem reciprocamente."
Sigmund Freud - Introdução à Psicanálise - Vol. VII. Obras Completas. Pag.10
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