RETRATO DE NOSSOS TEMPOS
"(...)‘O escritor é responsável pela liberdade humana.’ Em tempos de mudança, quando o opressor é conhecido, a liberdade é uma ação concreta, uma palavra, um gesto ou um panfleto distribuído às escondidas.
Quando nada muda e o opressor ainda não foi identificado, a elite consolidada compartilha das mesmas opiniões; escritores, jornalistas, economistas se transformam em defensores de conceitos universais -"a liberdade de expressão", "a verdade", "a ética", "a arte pela arte", o jornalismo pelo jornalismo, a economia como teoria pura e a política como jogo de poder.
O leitor, como um espectador de televisão que apertou o botão "mute", vê sem ouvir cenas de amor ou pornográficas, de violência ou heroísmo, de patriotismo ou corrupção com a mesma indiferença. O que se diz não tem importância nenhuma.
Em tempos assim, as eleições não são relevantes. O vencedor adotará sempre a mesma política, ou na linguagem dos "executivos", terá a mesma "missão" e o mesmo "desafio" do candidato que derrotou. A personalidade do candidato carismático, agressivo ou prudente é mais importante do que o partido. Um "head hunter" escolheria melhor do que as urnas".
João Sayad
– FOLHA DE SÃO PAULO – OPINIÃO – 30/08/04.DE MATAR
"Se vivo, Getúlio Vargas teria motivo para se matar devido às articulações destinadas a pôr abaixo a legislação de proteção ao trabalhador."
Vantuil Abdala
, presidente do Tribunal Superior do Trabalho, dizendo que Vargas se mataria hoje ao ver as mudanças que o governo Lula discute para reduzir o custo de contratação do trabalhador, ontem na Folha.
O BRASILEIRO
Fabiano,
que vida seca, e
tantas varejeiras
a sugar a tua seiva.
Urubus
vivem em cima
de tua carcaça.
Até quando?!
O mundo é complexo,
conturbado.
Mas, tente captar
pelo menos os seus ecos.
Sobreviva Fabiano!
Veja que na terra
dos solos gentis,
não cederão espaço
para teus ossos,
que insistem em continuar.
Indigne-se!
Perceba alguma coisa!
Reaja!
Deixa de ser um zoomorfo!
Solte pelo menos
os seus grunhidos,
Fabiano!!!
A CONQUISTA
“Moleque Nicanor arregalou os olhos, deixou o capanga e o sedenho; cortou um cipó, e ajuntou pedrinhas no chapéu de palha.
Fazendo declarações de amor, com vozinha blandiciosa, moleque Nicanor vai andado devagarinho, em ziguezagues, não diretamente para os animais, mas para um ponto imaginário, vinte metros à esquerda do bando. Agora assovia e sacode o chapéu com as pedras. Coringa relincha. Vira – saia levanta a cabeça. Moleque Nicanor pára. Espera um pouco. Contínua. Os cavalos se afastam, mais metros para oeste. Moleque Nicanor alcançou o ponto visado, mas a distância inicial de pouco diminuiu.
Moleque Nicanor recomeça a manobra. Ai, de repente, nitrindo, os animais desembestam a correr pela a campina, de crinas abertas, em galope circular.
Moleque Nicanor não se precipita. Parece ter previsto este alarme. Deita – se no capim, e, bem no centro da circunferência, espera que os eqüinos se cansem e desistam de correr. Então, ele recomeça. Assoviando, andando, parando, falando, agitando as pedrinhas no chapéu. Ao fim de um quarto de hora, não sei bem o que ele fez, além de ter feito um belo sinal; mas a tropilha se fracionou. Os outros foram para longe, em dois grupos, para a borda da mata. Vira – saia ficou sozinho.
O negrinho se endereça a ele, mas agora com requintes de suaviloqüência. Já menos de vinte metros um do outro. E decerto que Vira – saia está pensando que as pedrinhas do chapéu são mesmo milho debulhado, porque ele não sabe se quer correr ou se prefere esperar. - Êh, meu irmãozinho! Êta beleza de cavalinho, só pra moça bonita montar! Vem cá, meu irmãozinho, chega pr’aqui...
A voz do moleque Nicanor é uma comprida carícia. As pedrinhas chocalham. O cipó está bem escondido, debaixo do braço. Parou. (...)
A distância agora é mínima. Vira – saia avançou um quase nada. Moleque Nicanor já estava imóvel. Vira – saia vem mais para perto... mais... pronto! Com viva rapidez e simulada displicência, moleque Nicanor jogou o cipó no pescoço do animal. Vira – saia estremeceu, mas que da quieto, porque pensa já está prisioneiro. E, dócil, aceita que Moleque Nicanor lhe bata a mão num punhado de grina e lhe passe o cipó na boca, abotoado – o em barbicacho e deitando uma volta furtada ao redor do focinho. Pula no lombo nú do cavalo, dando – lhe com os calcanhares nas costelas. E grita:
- Ei! Anda, égua magra! Piguancha!... Irmãozinho que nada! Já se viu cavalo nenhum ser irmão de gente.”
Guimarães Rosa, SAGARANA. Minha Gente. p. 222.
APAIXONADO
"O Destino está no Céu, a armadura frente ao peito, o sucesso deve-se à agilidade das pernas. Vá para a batalha confinado na vitória. Entre em combate determinado a morrer e você sairá vivo dele. Se você sai de casa determinado a não voltar a vê-la, você retornará a salvo; se você tiver um só pensamento de que irá retornar certamente você não voltará. Você não esta errado ao pensar que o mundo esta sempre sujeito á mudança, mas o guerreiro não deve distrair-se com tal tipo de pensamento, pois para ele o destino já está determinado."
(de Uesugi Kenshin, 1530-1578)

OBSTÁCULOS
Cristóvão buscava
a Cidade do Céu.
Pintada pela pena de Marco Polo.
Saiu o genovês navegando
para o ocidente.
Mas, como tudo na vida:
tinha uma pedra no meio do caminho.
|
||
|