HOMENAGEM A AQUELES QUE REPRESENTAM ESTA CONQUISTA E EM ESPECIAL...

1978/79
Cartaz de Otávio Roth para Campanha pela Anistia Ampla Geral e Restrita
ANISTIA
Carlos Drummond de Andrade
Mal foi amanhecendo no subúrbio
as paredes gritaram: anistia
Rápidos trens chamando os operários
em suas portas cruéis também gritavam:
anistia, anistia.
Os bondes vinham cheios. Tabuletas
já não diziam Muda, Méier, Barcas.
Uma palavra só, neles gravada:
anistia
Os jornaleiros brandem um papel
de dez metros de alto por cinqüenta.
Nesse cartaz imenso, em tinta rubra:
anistia
As lojas já pararam de vender
Os vidros, os balcões, se rebelando,
beijam teu nome, roçam tua imagem,
anistia
Se olho para as rosas: anistia
Para os bueiros da City, para os céus,
para os montes em pé nas altas núvens:
anistia
Anistia nos becos, nos quartéis,
nas mesas burocráticas, nos fornos,
na luz, na solidão:
só anistia.
E bate um sino. Um remo corta a onda.
Alguém corre na praia. Estes sinais
querem dizer apenas, sem disfarce:
anistia, anistia
A sorte corre hoje, último número.
Compro o bilhete, para decifrá-lo
não preciso de códigos. Avise-me:
anistia
Anistia: teu nome se dispersa
no vento de Ipanema e do Leblon,
para se condensar, sopro terníssimo,
sobre todas as coisas: anistia.
Esta é a voz dos mortos sob o mármore,
é a voz dos vivos no batente. Ouço
mil bocas em silêncio murmurando:
anistia
Vem, pois, ó liberdade, com teu fogo
e tua rosa rebelde nos cabelos,
vem trazer os irmãos para o sol puro
e incendiar de amor os brasileiros


SONHO
Desalentada venho,
arrastando a vida.
Caminhando sem destino.
Rumo à alguma coisa que não existe.
Em algum ponto do percurso,
desapareceste.
Enfastiada não importei.
Hoje, o caminho é escuro.
E tu és, o farol da utopia.
Que entre teus esqueletos andamos.

Edvard Munch, "El Grito" (1893)
ANGÚSTIA
O movimento dos ponteiros
de um relógio na parede.
Portas sem saída.
Ar comprimido na alma.
Noites, sem fim.
Emudecimento da alma.
É girar em torno um mesmo ponto.
Febre em dia quente.
É afundar em pleno oceano,
de mãos e pés amarados.
"A VIDA É DOR
Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor.
Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre.
A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos.
A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da presa.
A vida é uma história da dor, que se resume assim: sem motivo queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim consecutivamente durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça"
SCHOPENHAUER

OS ESTETAS DA ALMA HUMANA
"O poeta é tão fingidor / que pensa que é dor / a dor que deveras sente."
Fernando Pessoa
Amar o humano, é tarefa peculiar para os escritores. Ser capaz de mergulhar no abismo humano, é uma das exigências cruciais para está profissão. Conseguem descrever a alma humana, como ela se apresenta, sem juízos de valores morais e culturais. Foi assim, que os grandes escritores se imortalizaram e ajudaram psicólogos a conceituarem algumas significâncias deste universo.
Muitas vezes, vemos pessoas respeitadas, nos parâmetros sociais, que cometem crimes diários, assassinam almas, levam pessoas ao suicídio, a loucura, pelo prazer de ver o outro sofrer. Quem nunca em seu caminho, cruzou com algo diabólico, como o casal Cristiano Palha e Sofia, do romance "Quincas Borba" de Machado de Assis. Aliás, "O Bruxo" é sem dúvida àquele que melhor pintou a alma humana. Neste quesito, ele não tem concorrente, se é verdade que Shakespeare inventou o humano, Machado o reinventou.
Amar a ira, a melancolia, a depressão, a sordidez, o egoísmo, o poder, o louco, o assassino, senão estes seres, capazes de descer nos subúrbios da alma humana, como desceram Dostoievski, Freud, Homero, Joice, Guimarães Rosa, Balzac.
Sem estes seres, capazes de delinear a existência humana, não seriamos mais do que folhas levadas ao vento.

BRUGEL - O VELHO
BARBÁRIE
Eretos corpos metálicos,
feito um dardo
penetram em corpos
de homens, mulheres e crianças.
E na insensibilidade do contato,
deixamos de ser humanos e
nos tornamos o pior dos selvagens.
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