
O LOUCO
Quando os meus olhos,
se encontram com os teus,
Que vontade tenho
de te abraçar.
Tu és especial,
saíste dos limites que me dominam.
Tenho pena de mim,
diante de ti.
Tu te embriagaste de vida.
Eu cato as migalhas que deixam.
Estás tão próximo da verdade.
Enquanto eu,
eu fujo dela,
todos os dias.
A normalidade?
É um amontoado de mentiras.
Pois também somos loucos,
loucos disciplinados.
"Eu não acredito em nenhum valor de ordem política, filosófica, social ou religiosa. Acho a vida uma experiência que tem de ser vivida e se esgota, termina. Depois disso, mais nada."
Carlos Drummond de Andrade
O OLHAR
Tens o brilho da dor,
a beleza das flores no sepulcro.
Neles vejo um abismo,
tempestuosos dias cinzentos.
Carregam a miséria dos séculos.
Insuportável apreende-lo.
Sem Nome - Leda Mar
Eu amo a literatura. Ela é perfeita. Ler um poema como este do Drummond, que te deixa em estado de êxtase, é um dos motivos pelos quais vale a pena continuar vivendo o dilema humano. Em seguida, um artigo maravilhoso, sobre o poema.
LIBERDADE
Carlos Drummond de Andrade
O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
"O que primeiro chama a atenção do leitor é o laconismo do poema, sua brevidade e sua secura. Fora isso, não se pode ficar indiferente ao impacto que o texto causa em quem o lê, decorrente da forma oracular como o autor fala acerca do dilema mais angustiante que aflige a vida humana: a morte. Ganha relevância, nesse sentido, o fato de o poema ter sido escrito nos últimos anos de vida de Drummond, talvez mesmo nos seus meses finais. Todavia, nada está mais distante desse pequeno texto do que um tom propriamente dramático, ou sequer melancólico. O que também perturba o leitor, quando se depara com este poema é o caráter duro, racional, estóico mesmo, com que Drummond se refere à morte. Na verdade, a surpresa que "Liberdade" provoca decorre, certamente, da própria estrutura formal do texto (próxima do oráculo), cuja articulação faz com que a leitura do poema, desde o título até o último verso, ou melhor, até a última palavra, seja feita por meio de uma sucessão de imagens surpreendentes, quase que semelhantes a pequenas armadilhas semânticas que acabam levando o leitor a uma espécie de beco sem saída, o que faz com que, ao final, tenhamos uma sensação arrepiante e experimentemos uma súbita falta de ar. Não tenho dúvidas acerca do fato de "Liberdade" ser um dos poemas mais impressionantes que Drummond escreveu. Mas vejamos como a estrutura formal do texto acumula uma sucessão de pequenas surpresas, que culminam na imagem inesperada da morte no último verso, mais precisamente na última palavra.
A palavra liberdade, que dá nome ao poema, possui uma conotação extremamente positiva e otimista. É uma das palavras mais alegres da língua portuguesa (certamente de qualquer outra língua também), doce aos ouvidos de qualquer pessoa, e que imediatamente faz sonhar. Esse teor onírico, sedutor e inebriante da palavra liberdade parece ter o poder de imediatamente nos tirar "daqui", e nos enviar para qualquer outro lugar, social ou político, mas sobretudo existencial; ou seja, para um "lá" seguramente mais feliz. Temos aqui um signo de inegável poder sugestivo e de irresistível sedução. Mas as conotações, inebriantes no caso, que este termo comporta parecem (como ocorre com todas as palavras) terem sido construídas historicamente. Vale dizer: os vários sentidos que este substantivo aglutina são o resultado de um longo processo histórico-cultural, que, especificamente quanto à palavra liberdade, parece ter um momento crucial no Romantismo, movimento alimentado pelos sonhos libertários que inundaram o mundo após a Revolução Francesa, no final do século 18. Liberdade talvez seja a mais romântica de todas as palavras; e, como muitos outros termos centrais da ideologia romântica, também este parece hoje um clichê mais do que cristalizado, e que não comporta mais nenhum tipo de novidade semântica. Por isso, este pequeno poema de Drummond se revela surpreendente ao conseguir incorporar à palavra liberdade uma densidade nova e inesperada, a qual faz com que ela adquira um peso filosófico que o lugar comum romântico decididamente não comporta mais. Ao longo do texto, o que o poeta acaba promovendo é uma inversão radical dos significados comumente atribuídos à idéia corriqueira de liberdade (indissociável do escapismo romântico), pois ele paralisa toda idéia de movimento que a palavra suscita, ao associar liberdade e paralisia, associação presente na dura expressão "estar morto", que encerra o poema. Em outros termos: o poema "Liberdade" é um verdadeiro exercício de descontrução, já que ele põe abaixo a nossa visão comum do mundo, particularmente no que diz respeito às idéias de liberdade e morte. O escritor constrói uma imagem poética inovadora que nos leva a enfrentar a questão da morte com uma perspectiva filosófica para a qual talvez não tenhamos a coragem necessária. Mais especificamente: este poema, que Drummond escreveu na sua velhice final, ilustra com clareza e com impressionante economia a modernidade radical de sua escrita, visto que é um texto que comporta, tanto na forma quanto no conteúdo, um tipo de organização estética decorrente de um pensamento específico da literatura produzida pela modernidade. Compreender este pequeno texto de Drummond talvez ajude a perceber com um pouco mais de clareza o que vem a ser esta escrita moderna que, de modo decisivo, fez de Drummond um dos maiores poetas do mundo. O espírito crítico, visível na inversão irônica da idéia romântica contida na palavra liberdade, que desmonta o clichê ao associar liberdade e imobilismo ("estar morto"), tal espírito é, sem dúvida, o agente maior responsável pela geração dos novos significados que o poema, de verso em verso, vai engendrando. Devemos, portanto, entender em detalhe como a organização poemática dá corpo à visão do mundo drummondiana, radicalmente moderna, como já foi dito.
O poema se estrutura sobre um esquema semântico curioso, cuja característica mais visível está indicada na inversão que o texto promove do sentido romântico convencional da palavra liberdade. Tal esquema pode ser definido nos seguintes termos: o poema "Liberdade" é construído por uma sucessão de desmontagens críticas, as quais fazem com que, de maneira gradativa, os clichês associados à nossa concepção de liberdade sejam desfeitos um a um, numa seqüência cumulativa cada vez mais complexa. O poema é extremamente simples na sua composição sintática, na sua camada lexical, e na sua organização rítmica e rímica. Os seis versos, todos de cinco sílabas poéticas (forma popular da redondilha menor), estão divididos sintaticamente de dois em dois; o poema é composto por três períodos sintáticos coordenados, cada um deles comportando dois versos. O primeiro período diz: "O pássaro é livre/na prisão do ar". A frase nominal, com verbo de ligação, que dá início ao poema apresenta a mais tradicional das metáforas associadas ao tema da liberdade: o pássaro, cuja capacidade de voar, de sair da terra, fez dele o arquétipo do ser livre. O primeiro verso do poema é composto por um lugar comum. Entretanto, o segundo verso, sintaticamente ligado ao primeiro, do qual constitui um adjunto adverbial de lugar, é responsável pela desmontagem do clichê. Quando Drummond retoma a conhecida imagem do pássaro livre, ele o faz para, em seguida, introduzir uma novidade semântica que desfaz o estereótipo: o pássaro é livre, (só que) na prisão do ar. Percebe-se que o adjunto tem, nesse caso, implicitamente, um papel restritivo, responsável pela introdução de uma idéia nova e inesperada, que aponta um limite à propalada e invejada liberdade do pássaro. Que ele é livre, não há dúvida; mas sua liberdade é restrita. Aquele que comumente vemos como o mais livre dos seres, também tem a sua liberdade cerceada, o que nos é mostrado pela imagem paradoxal da "prisão do ar". Por outras palavras: a uma imagem conhecida e vulgar, Drummond associa uma imagem imprevista que relativiza a primeira. Uma nova metáfora ("prisão do ar") corrige uma metáfora gasta (pássaro livre), completa-lhe o sentido, mostrando o que nela existe de ilusório. O paradoxo, contudo, se explica: também o ar tem suas fronteiras; o vôo do pássaro está circunscrito à atmosfera terrestre. Não há pássaros na Lua; o fundo dos oceanos é inacessível a eles. O pássaro, assim como o homem, se depara com a angustiante noção de limite: só é possível a ele voar até certa altura, pois não consegue transpor a barreira do ar nem a da água. O poeta mostra que o vôo do pássaro é um simulacro de liberdade. A consciência crítica de Drummond se faz presente de imediato no texto, corrigindo as ilusões do passado: não invejemos o pássaro, como Ícaro o fez; a ave também tem seu lado "humano", pois é prisioneira das fronteiras do ar, como somos da fronteira da morte.
Desfeito o mais convencional dos clichês, o poeta parte para a desmontagem de outra imagem metafórica tradicional: a da tão propalada liberdade do espírito, que, ao contrário do corpo, não pode ser aprisionado. Há uma identidade quase que total entre o primeiro período sintático do poema (versos 1 e 2) e o segundo (versos 3 e 4). Também aqui temos uma frase nominal, com verbo de ligação, acompanhada de um adjunto, também com função restrita: "O espírito é livre/na prisão do corpo". Se inicialmente Drummond retoma uma imagem mais concreta do sujeito livre, por meio da convencional metáfora do pássaro, agora ele tenta mostrar que algo tido tradicionalmente como um ser livre por excelência (porque abstrato), ou seja, o espírito humano, na verdade é igualmente algo que tem a sua liberdade limitada. É conhecida a idéia segundo a qual o espírito humano é livre, explorada também romanticamente numa era marcada por regimes autoritários e repressões político-sociais de variada ordem (só na aparência, sabemos muito bem, a modernidade é uma época libertária). Esta segunda imagem que Drummond incorpora ao poema, para esvaziá-la, é nitidamente mais abstrata e mais ampla que a do pássaro, com a qual o texto se inicia. Podemos fazer um número razoável de ilações acerca da propalada liberdade do espírito, tais como: o corpo envelhece, mas o espírito permanece jovem; ou: o homem pode estar preso fisicamente numa cadeia, sua voz pode ser calada, mas não há domínio possível para a sua consciência, sempre livre; ou, finalmente, algo um pouco diverso: o espírito, ainda que possa levar a reflexão humana às alturas, libertando o homem das condicionantes materiais da realidade, é, contudo, frágil: como se pode ter o pensamento sempre "no alto", e permanecer insensível aos apelos eróticos do real? Esta última comparação me parece especialmente importante no conjunto do poema, pelo fato de mostrar que a existência humana tem na materialidade corpórea a sua pedra angular: o homem só é homem porque tem um corpo. É impossível negar essa verdade a que os humanistas dos séculos 15 e 16 (Montaigne, Maquiavel, Thomas More) se apegaram com tanto fervor, opondo-se ao pensamento medieval, que via no corpo o instrumento do pecado, a barreira definitiva entre o homem e a transcendência (a salvação da alma). Temos aqui a inegável veia humanista de Drummond, amadurecida pelas conquistas filosóficas da modernidade, tais como as da fenomenologia (não nos esqueçamos da "carne do mundo", a que Merleau-Ponty se refere, idéia associada à descoberta de que o pensamento se faz com o corpo). Diante disso, mais uma vez Drummond põe abaixo a noção convencional da liberdade do espírito diante das contingências do concreto. Que o espírito humano é livre, também não há dúvida; e certamente ele é mais livre que o pássaro, pois é mais abstrato do que ele. Todavia, da mesma forma há um limite "geográfico" para o espírito, assim como para o pássaro. Vale ressaltar que as imagens que vão se sucedendo no texto perfazem um caminho de chegada ao humano. Drummond começa falando de coisas que, a princípio, estariam distantes do homem (pássaro e ar); e chega, passando pelo espírito, até o corpo humano, ponto culminante dessa trajetória e elemento mais privilegiado no poema. A corporeidade é a medida do humano: o espírito (talvez o mais concreto dos substantivos abstratos) existe no corpo.
Esta parte inicial do poema, formada pelas imagens (desfeitas e refeitas, graças a uma nova diferença que desfaz a repetição dos clichês) do pássaro que encontra no ar o seu limite, e do espírito circunscrito ao corpo, reforça o problema da condição humana, por meio da ênfase dada à noção de limite (duramente referida no poema por meio da repetição da palavra "prisão"), que cerceia tanto o pássaro (concreto) como o espírito (abstrato). Na verdade, o pássaro não deixa de ser uma metáfora do homem, pois ele encarna tradicionalmente o desejo humano de transcendência, materializada na imagem do vôo livre. Este parece ser o tema central do texto, senão da obra total de Drummond, e que fez dele um poeta humanista por excelência, que procurou durante toda a vida traduzir poeticamente a experiência existencial do homem moderno. Questão difícil de ser enfrentada, mas que o poeta encara: o homem é um ser que se depara conscientemente com a idéia do limite, ainda que tenha sempre o desejo de transcendê-lo. Impossível não lembrar de Pascal, o filósofo que definiu o homem como um ser ao mesmo tempo grandioso (pela inteligência, que o diferencia de todas as outras coisas do universo) e miserável (pois é o único que tem noção da própria fragilidade, visível de maneira nítida na consciência da morte). Vemos aqui que a poética de Drummond encontra reflexos na tradição literária e filosófica iniciada na modernidade do século 17, que teve na filosofia barroca de Pascal um de seus modelos inaugurais. Porém, Drummond radicaliza os temas dessa tradição humanista, pois ele torna mais agudos os dilemas existenciais humanos, dos quais o mais angustiante é decididamente a perspectiva da morte. É justamente esse problema que surge de forma inesperada e arrepiante na parte final do texto.
Os dois últimos versos do poema rompem imediatamente com as idéias presentes nos versos anteriores, fato já perceptível pelo uso da palavra "Mas", a mais adversativa de todas as conjunções, que dá início ao período final do texto. Sabemos que essa conjunção é um dos termos mais densos da língua portuguesa pelo fato de ser carregado de uma forte carga semântica adversativa; ou seja, quando a conjunção "mas" surge numa seqüência argumentativa, ela derruba, ou pelo menos relativiza muito, as idéias anteriormente sustentadas. A conjunção "mas" instala sempre uma ruptura no encaminhamento de qualquer discurso, tal como se verifica nesse texto de Drummond. As imagens libertárias enumeradas no decorrer do poema (pássaro e espírito), ainda que tenham sido devidamente relativizadas, pois o poeta soube mostrar como esses signos de liberdade são limitados, tais imagens são substituídas por uma imagem final absolutamente inesperada, que pretende superá-las como o símbolo maior e incontestável da liberdade. Além disso, os versos finais reforçam o caráter de ser livre do indivíduo que está morto (reforço obtido pela reiteração "livre, bem livre", e pelo tom asseverativo: "é mesmo"). O final do poema associa liberdade e morte; porém, o faz de maneira também inesperada e anticonvencional, e, dessa forma, as descontruções dos clichês que fizeram parte de todo o poema encontram aqui o seu ponto culminante. Também faz parte da visão comum do mundo ver a morte como sinal de liberdade, pois se entende que ela propicia ao homem a passagem para a vida eterna: afirma-se que o homem morre para "esta" vida e nasce para a "outra". Trata-se de uma visão do mundo e da morte de origem milenar, e que talvez tenha sido sedimentada de fato na Idade Média cristã, quando a ideologia religiosa fazia pensar na morte como uma passagem, como um renascimento para a vida eterna. Contudo, Drummond não associa propriamente liberdade e morte, no sentido comum dessa associação, visto que ele simplesmente não diz que ser livre é "morrer", mas sim "estar morto". Qual a diferença entre estes dois termos: "morrer" e "estar morto"? A principal distinção decorre do fato de "morrer" ser um ato instantâneo, que rapidamente marca a passagem da vida à morte. "Morrer" é uma ação; "estar morto" é uma situação. Drummond vê a liberdade total na paralisia de um ser que, estando morto, jaz num estado perene de imobilidade. Enquanto "morrer" é uma ação que logo acaba, ou melhor, ela acaba ao mesmo tempo em que começa, "estar morto" comporta uma duração. Se "morrer" é um ato, "estar morto" é um estado. "Morrer" é algo definitivo; "estar morto" é, de uma certa forma, continuar submetido à passagem lenta do tempo. Paradoxo maior, certamente de origem barroca: "estando mortos", não morremos ainda. Quando se morre, deixa-se de ser; quando se está morto, de alguma forma, ainda se é. E, principalmente: ao morrer, abandonamos a vida; estando mortos, em certo sentido, continuamos "aqui", ao contrário de quem morreu e que, definitivamente, se foi. É esse estado que Drummond define categoricamente como a situação do ser livre; quer dizer, a liberdade não está em "morrer", mas antes no "estado de morte" – distinção filosófica sutilíssima, extremamente contraditória. A explicação desse paradoxo talvez esteja na seguinte constatação: a modernidade é a quadra histórica que marca o fim da crença medieval na transcendência. O que o poema de Drummond parece querer negar é a possibilidade de uma ascensão libertária que a morte, a princípio, prometeria conter. Tentemos entender um pouco mais isso.
Em uma entrevista recente para a televisão, o filósofo brasileiro Renato Janine Ribeiro lembrava que antigamente (podemos pensar, sobretudo, no período medieval) a idéia de "boa morte" era a da morte lenta, ou seja, aquela que possibilitava ao indivíduo, antes de morrer, despedir-se dos familiares e das pessoas queridas, estipular com seriedade a herança e receber os últimos sacramentos. Soma-se a isso o fato de, também naquela época, a data da morte ser mais importante na biografia de alguém do que a data de seu nascimento, pois a morte era entendida como o momento de renascer para a vida eterna. Morrer lentamente é preparar-se com calma para esse novo nascimento (mais importante que o primeiro), de preferência suportando com valentia os momentos de agonia, pois as dores do corpo eram a moeda com que se pagava a salvação da alma. Ao contrário, em nossos dias, lembra Renato Janine Ribeiro, o ideal de "boa morte" é a morte súbita: a morte inesperada, instantânea, que acomete de repente o sujeito, muitas vezes sem que ele tenha sequer a percepção de que vai morrer; e, de preferência, a "boa morte" é indolor. A morte medieval é o apagar lento de uma vela; um espetáculo público acompanhado por todos. A morte moderna é uma lâmpada elétrica que subitamente "queima"; uma cena doméstica, privada, que quase ninguém vê. Tal diferença não deixa de ser um sinal concreto entre a crença medieval e a descrença moderna na transcendência. Acontece que Drummond expande a idéia da morte súbita a fim de ver a liberdade não nesse instante da morte, mas na duração do "estar morto". Ora, o que o poeta tem em mente é a idéia de que só a morte liberta o homem da sua condição: "estando mortos", não pensamos; ou seja, lembrando Pascal, deixamos de ter consciência da nossa fragilidade. Ou ainda podemos pensar com Schopenhauer: "estando mortos", a Vontade cessa de atuar em nós, nossos desejos se calam – e só então podemos estar tranqüilos, serenos, livres finalmente de nossa ansiedade congênita. Vemos, portanto, que Drummond assume radicalmente a perspectiva moderna de entendimento da condição humana: aquela que o liberta da ancoragem vertical ao divino, que o coloca diante da noção de limite da existência, e que sobretudo, procura entender o "homem humano", como escreveu Guimarães Rosa.
Desde a camada sonora do poema, que cria uma tensão entre sons abertos em /a/ ("liberdade", "pássaro", "ar", "estar") e sons fechados em /o/ ("corpo", "mesmo", "morto"), bem como entre sons abertos em /i/ e fechados em /e/ ("liberdade", "livre"), a linguagem deste texto de Drummond o direciona para uma enorme ambigüidade, que está alicerçada sobre uma série de antíteses (sonoras, sintáticas e semânticas). Também na camada sonora chama a atenção um embate, presente em todo o poema, entre as consoantes constritivas (/s/ e /r/) e as consoantes oclusivas (/p/ e /t/), as quais impõem limites sonoros às primeiras, como ocorre com evidência nas palavras "corpo", "estar" e "morto". Tais contrastes, que aparecem nos vários níveis da linguagem, permitem ver esse texto de Drummond como uma espécie de Barroco passado a limpo. Nesse curto poema, estão presentes as marcas estilísticas mais caras à escrita barroca: as antíteses (liberdade/prisão; espírito/corpo); os paradoxos ("prisão do ar"); a repetição de um mesmo significante com significados distintos (a palavra "livre" repetida 4 vezes com pequenas variações de conotação); e um certo conceptismo. Acrescente-se a dissonância entre a simplicidade da forma (com destaque para o popular uso da redondilha menor) e a complexidade do conteúdo, traço decididamente moderno, aliado à economia absoluta dos meios expressivos, e temos um texto que comporta um enxuto viés barroco. Portanto, a herança barroca do poeta fica patente nesse texto, que assim o aproxima da escrita barroca de Guimarães Rosa, principalmente aquela presente em "A terceira margem do rio", um dos textos mais barrocos da literatura brasileira. Barroco moderno, distinto, evidentemente, daquele do século 17. O barroquísmo de Drummond e Rosa (dois escritores mineiros) vê o homem também em dilema, mas não entre os apelos do alto e do baixo, da alma e do corpo, do divino e do humano, tal como vivenciados por Antônio Vieira e pelo Aleijadinho. A percepção de um dilema barroco na obra de Drummond e Rosa se faz em outros termos: o homem dividido entre a vida e a morte; entre o entendimento da grandeza humana e a certeza de sua miséria (que a modernidade acentua); entre a atração e a repulsa pelo real; entre o "ser" e o "estar" (os dois únicos verbos presentes no poema, que não exprimem qualquer tipo de ação, mas de situação). Não há mais uma angústia decorrente da antítese entre os apelos do "vertical" e do "horizontal"; agora existe a dupla perspectiva (também angustiante) de dois "horizontais", lindamente metaforizada na distinção entre as duas margens do rio e a "terceira" margem . A "terceira" margem não está acima do rio, não se encontra no alto; ela está ao lado, ainda no plano terreno; talvez mais no plano da História do que no do mito. A "terceira" margem, assim como o "estar morto", é uma situação. O "estar morto" de Drummond foi vivenciado pela personagem rosiana que passou a viver na canoa, que se transferiu para a "terceira margem", para o espaço da diferença. Com esse gesto, o pai tirou do filho-narrador o eixo convencional da vida; tirou-lhe o "chão"; privou-o do cotidiano. E, sobretudo, instalou-o numa situação insolúvel e contraditória, sem conciliação possível: aquela em que o homem se encontra com a condição de sua humanidade, e com a percepção barroca dessa condição (tal como foi tragicamente entendida por Pascal). Importante: no conto de Guimarães Rosa, quem sofre não é o pai – livre - na canoa (que se coloca na situação do "estar morto"), mas sim o filho, que está vivo, e que, contudo, não consegue mais "viver".
Como mencionei inicialmente, o poema se estrutura a partir do modelo oracular. Contudo, o poema "Liberdade" é na verdade uma paródia do oráculo, visto que mantém a forma desse tipo de discurso (brevidade e teor metafórico), mas esvazia o seu conteúdo tradicional, quase sempre ligado à esfera do sagrado. Drummond se vale de uma forma oracular para esvaziar qualquer tipo de apelo ao transcendente; seu oráculo não aponta para o divino ou para uma vida após a morte; aponta antes para a existência humana na sua dimensão terrena, face à limitação da morte. O oráculo barroco de Drummond não se liga ao plano da divindade, mas ao plano do humano. E é justamente esse registro paródico que coroa as descontruções semânticas a que o poema submete a nossa visão convencional da liberdade e da morte. A paródia - repetição com diferença crítica - é a marca distintiva da literatura moderna, e também nas mãos do poeta mineiro serve de instrumento para um revisão da tradição. Dessa forma, a modernidade da escrita drummondiana encontra nesse texto uma boa ilustração, tanto na forma quanto no conteúdo. Por fim, o que o poema "Liberdade" nos mostra é que, para o homem, não há saída possível: da mesma forma que é impossível ao homem moderno deixar de ser moderno (os poemas neoclássicos de Fernando Pessoa/Ricardo Reis não são neoclássicos, pois o são apenas na forma, e não no conteúdo), também é impossível ao homem fugir de si mesmo, escapar aos seus pensamentos. O "estar morto" não seria realmente o estado de plena liberdade, pois aí, por fim, poderíamos não mais pensar? Não seria esse o verdadeiro desejo de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro?"
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