Adoro este poema, ele é para mim uma ferramenta fundamental, para entendimento da psicologia, como uma profissão voltada para a compreensão do humano, sem significar a morte existencial daqueles que buscam nela auxílio, em função da análise. Engana-se, quem achar que ele foi apresentado, dentro de um curso de psicologia. Não foi e jamais seria, por causa da limitação teórica e o excesso na valorização da técnica. O que carrego de mais essencial e qualitativo desta profissão, foi aprendido com um professor de Literatura. A Literatura e o Professor, como não amá-los!!!
A MOSCA AZUL
Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.
E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua - melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.
Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
- "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?"
Então ela, voando e revoando, disse:
- "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".
E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.
Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.
Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.
Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.
Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.
Vinha a glória depois; - quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.
Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.
Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.
Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.
Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.
Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.
Hoje quando ele aí sai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.
Machado de Assis
BONFIM
Perambulando
pelas elevações da Padre Eustáquio,
meu olhar encontra-se
com uma paisagem.
A mim escondida,
do outro lado do cume.
E, num horizonte montanhoso,
diversas catacumbas
enegrecem o meu olhar.
E, aquela palavra solta
nas minhas idéias,
cola-se em seu referente: Bonfim.
AS PARCAS
Deusas tecelãs do meu destino,
por que o tornaste tão repetitivo?
Por que o teceis com linhas tão cruas,
tão ásperas, tão difíceis de serem rompidas?
Ele deveria ser fiado com linhas tênues.
para, com uma simples brisa,
ser rompido.
Com a leveza do vôo das aves,
sem deixar nenhuma marca,
sem nenhum esforço,
para sempre seria cortado.
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