
Esta foto me vez lembrar do filme "Sonhos" de Kurosawa
Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito (...). Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso,(...) escapei com a ferocidade com que se escapa da peste.
Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, pág. 57-58

O canto do desencanto
Não há como tirar da poesia de Drummond a recusa do escapismo, a disposição de ler apenas o chão. E foi com esse simples reconhecimento da materialidade da vida que ele fez o verdadeiro Modernismo nacional, deixando uma herança que está em toda a cultura brasileira
Se você lê Carlos Drummond de Andrade para encontrar esperança, desista. Afinal, ele é autor do Soneto da Perdida Esperança: "Perdi o bonde e a esperança./ Volto pálido para casa." E dos seguintes versos de Mãos Dadas: "Estou preso à vida e olho meus companheiros./ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças./ Entre eles, considero a enorme realidade." E definiu assim o seu ofício com as palavras: "Luto corpo a corpo,/ luto todo o tempo,/ sem maior proveito/ que o da caça ao vento." E em seu livro mais "social", A Rosa do Povo, abriu um poema com o imperativo: "Não faças versos sobre acontecimentos." E confessou seu desdém pela oferta de romper com a Máquina do Mundo, "enquanto eu, avaliando o que perdera,/ seguia vagaroso, de mãos pensas". E no final da vida apelou a seus "dessemelhantes" que lhe pediam louvas: "Minha só leitura é ler o chão."
Há algumas características que atravessam todas as fases de Drummond e enquadram aquilo que se pode chamar de "drummondiano". O que elas mostram essencialmente é sua noção de si mesmo como solitário, que lê o chão da realidade e esse chão é como o de Itabira, férreo, pedregoso, e nele o poeta encontra as coisas caídas do mundo, as ilusões, os desejos insatisfeitos, as memórias despedaçadas, as sombras que não existiriam sem o sol acima. Essa sua visão material, antimetafísica, é uma avaliação das impossibilidades de cumprir o sonho, de olhar para o infinito e não ser cegado; é a consciência do desencontro com a eternidade: "E o que mais, vida eterna, me planejas?", pergunta em Instante, para responder: "O que se desatou num só momento/ não cabe no infinito, e é fuga e vento."
Não há como tirar da poesia de Drummond essa hegemonia do desencanto, essa recusa ao escapismo. Não é por outro motivo a presença constante do advérbio "apenas" em toda sua poesia. "A vida apenas, sem mistificação." "Apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente/ e solitário vivo." Ninguém melhor do que o próprio Drummond descreveu sua obra, no célebre Poema-Orelha: "Não me leias se buscas/ flamante novidade/ ou sopro de Camões./ Aquilo que revelo/ e o mais que segue oculto/ em vítreos alçapões/ são notícias humanas/ simples estar-no-mundo,/ e brincos de palavra,/ um não-estar-estando." Os versos finais são quase como um lema: "a poesia mais rica/ é um sinal de menos." Sua poesia está concentrada em "cuidados terrenos", não em pensamentos transcendentais; em ler sua sombra no chão, sombra ao mesmo tempo intransferivelmente sua e, por sua fisionomia vaga e simples, um pouco a sombra de todos nós, que no entanto não encontraremos abrigo ali.
A figura popular e mesmo erudita de Drummond não é muito essa que ele pinta de si mesmo. Ele é tido como uma espécie de cantor do coletivo, o que sempre descartou prontamente. Suas opiniões políticas, assim como as de Graciliano Ramos, de um socialismo mais humanista que programático, não recebem nem dele mesmo a importância que lhe dão alguns analistas. A poesia de Drummond não cabe no fardão acadêmico nem na gravata ideológica. Embora ele tenha escrito muito e irregularmente, sua imagem como poeta oficial do Brasil não podia ser mais enganosa. Sua modernidade está justamente aí; está em, à sua maneira, ser maior sendo menor. Mesmo a análise brilhante de Davi Arrigucci no recente Coração Partido, em que define com feliz precisão a poesia de Drummond como "lirismo meditativo", falta a ênfase no fato de que essa meditação inclui a própria dúvida sobre as virtudes da meditação.
E é por isso mesmo que Drummond, se rejeita fugas, não abandona as buscas; não se entrega à desilusão, espelho da ilusão perdida; tem pelo desespero o mesmo desprezo que tem pelo mito. Sabe, apenas, que o passado deixa rastros no presente, e assim segue "desfiando a recordação" dos que sonharam e perderam. O que procura, como Machado de Assis, é "o mínimo e o escondido", um registro dos instantes que se foram e frustraram suas promessas. O único acontecimento sobre o qual faz poesia é o da pedra no meio caminho, e no entanto esse acontecimento jamais será esquecido, apesar do cansaço de suas retinas. Com esse simples reconhecimento da materialidade da vida, Drummond, o Andrade que não era nem Mário nem Oswald, fez o verdadeiro Modernismo brasileiro, descartando a ourivesaria parnasiana e calando as exclamações românticas.
Três poemas são particularmente exemplares desse modo peculiar de resistência: O Lutador, O Elefante e Áporo. No primeiro, o poeta diz lutar, "lúcido e frio", com palavras que lhe dêem o sustento; a luta é vã, inútil, mas prossegue por sua própria força inerente, pela mera realidade do ardor humano. No segundo, ele fiz fabricar um elefante "de meus poucos recursos", um ser feito de papel e cola que, apesar de frágil, alude a um "mundo mais poético" e, no entanto, cai, "e todo seu conteúdo/ de perdão, de carícia/, de pluma, de algodão/ jorra sobre o tapete,/ qual mito desmontado"; mas o poeta acrescenta: "Amanhã recomeço." E em Áporo, o mais discutido de seus poemas, um inseto perfura a terra "sem achar escape" e, do labirinto que constrói, "antieuclidiana", se desprende uma orquídea; mas, como diz o título, essa orquídea não significa uma saída: ela é apenas um instantâneo feliz, um subproduto de uma tarefa que ela mesma não consegue desempenhar. A promessa não é menos bela por ser promessa, mas não há delírio humano que possa convertê-la em motor do mundo.
O caráter fundador da poesia de Drummond vem de uma atenção às coisas simples da vida que jamais se confunde com sua exaltação. É claro que muito de sua influência veio daquela má interpretação, daquela visão de Drummond como uma espécie de Manuel Bandeira - talvez um pouco mais maduro ou intelectual - que exalta a simplicidade. Mas o que Drummond deixou de duradouro para a cultura brasileira é sua consciência dos paradoxos, sua coloquialidade que não apenas olha o presente, mas o apresenta, sempre em tom menor - uma aceitação dos engenhos reais em convívio com uma admiração pelas coisas naturais, uma inquietude que não grita, uma amargura que aprova o desprendimento. Ele sempre reconstrói e recomeça, ainda que seja inútil e esteja exausto.
É difícil traçar as influências sobre a poesia de Drummond, o que é uma prova desse caráter fundador. Certamente ele leu os românticos, para poder recolher as sobras de seus delírios. Talvez tenha tido a influência de Fernando Pessoa, o Pessoa ele mesmo, o do poeta como "fingidor" - influência perceptível, mas jamais avaliada, no livro Claro Enigma (1951): "As coisas findas/ muito mais que lindas/ essas ficarão." E certamente se deixou influenciar pela prosa, prosador que também foi, e que do ritmo da prosa tira uma narrativa como a desse prodigioso Caso do Vestido, com seu sabor dialógico, suas imagens economicamente fortes: "minhas mãos se escalavraram,/ meus anéis se dispersaram,/ minha corrente de ouro/ pagou conta de farmácia"; "me cortei de canivete,/ me atirei no sumidouro,/ bebi fel e gasolina". A mãe simplesmente se rende à rotina que, por ser rotina, faz esquecer o momento de fuga do pai, mas o vestido da amante está lá, pendurado no prego, vazio e desgastado, como eterno sinal de menos.
Entre lírico e irônico, entre introvertido e prosaico, Drummond deu à língua portuguesa mais que sua Antologia Poética (a que ele mesmo organizou em 1962, com notável poder de seleção); deu a ela uma nova qualidade, um modo ao mesmo tempo ético e livre de pensar, rico em ambigüidades, capaz de achados lingüísticos como de fluência constante, de juntar amargura e graça. Drummond não tem a densidade reflexiva de Fernando Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa no século 20. Mas sua herança está tanto no sotaque "mineral" de João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar como nas tristemente doces canções de Tom Jobim e Chico Buarque, o que significa que é de uma grandeza que talvez nem ele mesmo desconfiasse. Uma grandeza que vem do chão: "Estou preso à vida" é o que diz, e essa vida é simples, pequena, assumidamente pedestre.
Se você lê Carlos Drummond de Andrade para encontrar esperança, desista.
O Elefante
Carlos Drummond de Andrade
Em A Rosa do Povo, livro de Carlos Drummond de Andrade, ao qual pertence o poema O Elefante, objeto central deste trabalho, encontra-se também o poema Procura da Poesia, em que o poeta coloca seu conceito acerca da construção da arte poética: "Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intacta."
Em O Elefante, encontramos uma relação semelhante à desse texto acima transcrito: o poeta será aquele que se coloca diante de seu desígnio - a palavra -, esperando decodificá-la, nomeá-la poeticamente; feito isso, estabelece-se a relação criador/criação, autor/material. Tal fusão será tão intensa, que chegaremos ao momento em que um se confundirá com o outro, num mesmo instante poético.
A dialética criador / criação é um dos pontos mais abordados pela arte literária moderna, tanto em sua escritura como em sua crítica. Modernamente, o conteúdo é conseqüência do trabalho que o poeta faz com a palavra, e não mais sua causa. A criação poética passa a ser exatamente essa relação entre o autor e seu material.
Segundo Alfredo Bosi, em O Ser e o Tempo na Poesia, o homem, ao criar, coloca-se como o "deus" da criação, a partir do momento em que, como o "Grande Criador", tem o poder de nomear os seres. Nomear significa reconhecer, identificar; no nome, encontra-se toda a vivência do criador: é como ele vê o mundo, como entra em contato com ele, como estabelece esta inter-relação.
No caso do poeta-criador, este mundo a ser reconhecido é o "reino das palavras"; a palavra é o seu desafio maior, no desígnio de nomeá-la, dando-lhe sentidos especiais, tornando-a poética. Sendo assim, ao nomear, é como se se colocasse diante da vida, criando um processo metalingüístico dela. É o reconhecimento de que a "Grande Obra" do Criador está incompleta... Afinal, é como se Ele deixasse uma parte - pequena apenas na aparência -a essa sua criatura, que se transforma em criador ao relacionar-se com ela. A sensibilidade do poeta reconhece tudo isso: à imagem do Criador, que se estende em sua Grande Obra, desdobra-se na criação... desdobra-se tanto, até chegar a um momento em que não há diferença entre um e outro - criador e criação fundem-se num único espaço e tempo, sem limites, como resistência - conforme coloca Alfredo Bosi - diante da rotulação pré-estabelecida. Assim, também busca algo, ao mesmo tempo grande e grandioso em seu desígnio: sua criação é um elefante; não é o elefante, mas um elefante; não se pretende único, definido, específico, mas busca apenas ser um, modestamente composto de "poucos recursos"; é grande (elefante), porém, indefinido (um). É como se houvesse aí o primeiro de uma seqüência de paradoxos: "o elefante"- como nós o conhecemos- é definido ao extremo (visível e espalhafatoso em sua forma), mas "um elefante"- este, criado pelo poeta - será indefinido, etéreo, com todo o direito a sê-lo... é sua criação, em sua capacidade de perceber a forma, que pede para ser interpretada. O material de que será composto sairá da observação da "vida presente" (de que o poeta fala em "Mãos Dadas"), parte a parte, ainda etéreo, indefinido: "Um tanto de madeira / tirado a móveis velhos / talvez lhe dê apoio". É assim o pretenso apoio do elefante- "móveis velhos"; o mundo, a vida já existente, que o poeta pretende recriar. Sua essência mantém a estrutura diáfana: "... o encho de algodão, / de paina, de doçura". Ele é leve - é tudo o que não esperávamos de um elefante! As orelhas são "pensas", mantendo a estrutura inicialmente delineada: tem nelas, pela sua audição, seu acesso inicial - embora ineficiente - ao mundo. Mas "a parte mais feliz / de sua arquitetura" é a tromba.
O elefante, como observamos no prosseguimento da montagem, terá nela seu acesso mais possível: é possível sentir o cheiro do mundo, inalá-lo e envolvê-lo no enchimento de doçura e algodão, todavia é pouco possível ouvi-lo e comunicar-se com ele. Quem enxergaria um elefante tão etéreo ("Vai meu elefante/ pela rua povoada, / mas não o querem ver")? Tal impossibilidade de comunicação será ainda mais flagrante na tentativa de figurar as presas. Todos sabemos que o mundo valoriza o marfim; mata-se por ele... e é exatamente essa parte que o criador não consegue edificar - esta ele deixa para os circos; seu elefante é para a rua. Na atitude de o poeta colocá-lo na rua, localiza-se o ponto alto de tensão do poema: o elefante é a criação do poeta mandada às ruas, num desejo de contato sensacionista, num desejo de comunicação... é querer atingir o mundo... o criador expõe-se através da criatura, no início da fusão entre o autor e o material. A tensão resulta do fato de que o eu poético não concretizará seu desejo. O primeiro índice disso está no fato, já anteriormente mencionado, de não conseguir figurar as presas, exatamente aquilo que, de forma mais convencional, é observado num elefante. A riqueza de sua criação irá parta os olhos - "a parte do elefante / mais fluida e permanente, / alheia a toda fraude", pois, enquanto portais da alma, os olhos transmitem e geram vida; assim sendo, ninguém mata por eles: ninguém os ambiciona, porque ninguém os entende. Nessa tensão, o elefante, ingenuamente, tenta o contato, pois "sai à procura de amigos": "e move lentamente / a pele costurada / onde há flores de pano / e nuvens, alusões / a um mundo mais poético / onde o amor reagrupa / as formas naturais". É esta a sua arma maior: o amor. Como Platão, também acredita no Amor como energia maior do Mundo Inteligível, capaz de reagrupar, articular o que se apresenta desarticulado. Sua inocência é tão etérea quanto sua forma incognoscível; sua percepção não é suficiente para captar sua imensa fragilidade ("a cauda ameaça deixá-lo ir sozinho").Num processo de gradação, consegue ser "todo graça", embora "as pernas não ajudem / e seu ventre balofo / se arrisque a desabar / ao mais leve empurrão". O ventre, refúgio da vida, é preenchido também de doçura... mas ainda falta, sempre falta, e ele ainda está "faminto" Como não é visto, corre o risco de ser empurrado; como é apenas costurado, corre o risco de arrebentar e desabar. Mesmo assim, sustenta "sua mínima vida", mesmo que não haja "...na cidade / alma que se disponha / a recolher em si/ desse corpo sensível / a fugitiva imagem". Sensível e engraçado, dois adjetivos paradoxalmente entrelaçados. O paradoxo se dá devido à existência de dois ângulos de enfoque: ele é sensível em sua essência; é engraçado a partir do olhar alheio - é tocante, mas não é tocável. É como se os seres, no máximo, conseguissem ter pena dele... mais daí a tocá-lo, há uma grande distância, visto que, para chegar-se perto do que não se conhece, dá medo, é arriscado, principalmente se for algo que pode desabar a qualquer momento, de tão pesado. É um peso a não compreensão... o elefante está balofo de tanta vida; ele respira pela tromba enorme. É vivo demais para que se possa suportar, daí a idéia da comicidade... o riso preenche a lacuna deixada pela falta de entendimento: algo cômico torna-se algo descompromissado e, por conseguinte, não há razão para se entender. O mundo recua... e ele avança, acentuando o paradoxo inicial; tudo porque "o campo de batalha" o convida.
Em detrimento do riso alheio, o elefante mantém-se faminto. É a tensão do Eu X Mundo que se reforça: os outros riem; ele tem fome. A contraposição intensifica-se na conjunção adversativa utilizada pelo poeta - "mas" - revelando toda a desarmonia, a desarticulação entre o universo do criador/criatura e o do mundo. "Mas faminto de seres / e de situações patéticas" - também (e, talvez, principalmente) o patético faz parte da "vida presente"; porém é preciso entendê-lo para poder prosseguir. O patético riso é o desafio para chegar-se aos "encontros ao luar / no mais profundo oceano / sob a raiz das árvores / ou no seio das conchas / de luzes que não cegam / e brilham através dos troncos mais espessos" - é a máxima docilidade, que busca atingir o que o comum jamais atinge, o estrato vivo e essencial de cada ser, a luz, brilho na totalidade, desde o "profundo oceano", chegando ao "seio das conchas" - o fora (oceano, árvores) e o dentro (conchas)... num caminho ascendente, sem causar danos a nada, "sem esmagar as plantas / no campo de batalha". Mais importante que tudo é caminhar "à procura de sítios, / segredos, episódios / não contados em livro", aquilo que "os homens ignoram", por trazerem a "pálpebra cerrada"; novamente, para o homem, é preciso ignorar por medo de surpreender-se. Feito de "nuvens" e "flores de pano", ele "volta fatigado / as patas vacilantes / se desmancham no pó". Os passos, até agora desengonçados e constantes, fraquejam, por alguns instantes, tristes e cansados. "Ele não encontrou o de que carecia, / o de que carecemos, / eu e meu elefante, / em que amo disfarçar-me." Até esse instante do poema, tínhamos um elefante andando sozinho, buscando sozinho, qual personagem criado, "o de que carecia, / o de que carecemos". O pronome demonstrativo o é neutro: a essência buscada é vaga, ampla, grande demais, pois é luz (como anteriormente se mencionou), toda resumida no demonstrativo o; é a simplicidade reforçada. A criação carece... o criador carece... mais do que isso, um carece através do outro e vice-versa. Enfim, "eu e meu elefante, / em que amo disfarçar-me", num momento de epifania para o leitor: o elefante fabricado é o poeta e sua poesia (autor/material). Desta vez, o gauche do "Poema das Sete Faces" transformou-se num grande e desengonçado elefante, mantendo, em sua origem, o estigma de personagem torta: "caiu-lhe o vasto engenho / como simples papel", descolado, "e todo o seu conteúdo / de perdão, de carícia, / de pluma, de algodão, / jorra sobre o tapete, / qual mito desmontado"... imagem triste que pode gerar a idéia de que o criador vai desistir. Novamente, contrariando nossas expectativas, com a forma simples que lhe é característica, ele afirma: "Amanhã recomeço". Recomeçar, reconstruir, refazer... a poesia, constante diálogo com o mundo, perpetua-se na certeza da possibilidade de busca... é a palavra tornando-se vida, continuamente.

Encantos do Cerrado
PRONOMES
Não importa
o eu,
o tu,
o ele.
Mas sim,
o nós,
o vos,
o eles.
A busca do singular
é cômoda
e estéril.
Porém, o plural
abre caminho
para
o amor,
o ódio,
o insólito,
a fertilidade e
o caos.
REFLEXÕES DE NOSSO TEMPO
Freud, em Viena, chocado com o entusiasmo que a guerra provocara nos austríacos forçou-se a rever suas teorias da civilização. Percebeu, estarrecido, que por de trás do mais sisudo e empertigado europeu, batia o tantã de um selvagem. A cultura deles pareceu-lhe um falso verniz, bastando arranhá-lo para que a selvageria fosse exposta à vista.
Existe "Morte dos Valores"? como diz Umberto Eco, "cada ruptura da organização banal pressupõe um novo tipo de organização, que é desordem em relação à organização anterior, mas é ordem em relação a parâmetros adotados no interior do novo discurso". Quer concordemos ou não com estes novos valores.
RIO DAS VELHAS
Que trazes rio, a esta terra?
- A ganância,
a sede insaciável de ouro,
borbas gato que
procuram em ti pedaços do sol.
O oceano transpuseram-no.
Perdidos ao norte,
algum tempo lá ficaram.
Mas, tu sabes
o que move o mundo.
Hoje, aqui estão.
Sentindo-se abençoados,
pelas jazidas que em ti encontram.
Ti batizarão, serás Sabará.
Tu perderás a conta,
do número de pessoas que aqui virão.
Eu, continuarei como um Estige,
contrário ao meu curso,
conduzindo-os a outras terras
que como ti, terás no nome poesia.
Mas, nunca mais
serão as mesmas.
Estupradas e desvirginadas
pela cobiça
carregarão para sempre esta chaga.
Revoltadas, sangraram em meu curso.
Apagando o rastro
que conduziu os desbravadores.
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