
Topetinho (macho) Lophornis chalibea
Foto de Carlos Ravazzani
Transcrevo aqui um pequeno fragmento do conto "O Capote" de Nicolai Gogol, por achar que encontramos hoje no Brasil, figuras que tanto se assemelham ao personagem do conto "alta personalidade". São exemplos dele: Luiz Inácio da Silva, Severino Cavalcanti (com maiores evidências), uma tropa na câmara dos deputados, alguns no Senado, nas assembléias legislativa dos estados e nas câmaras municipais, no poder executivo estadual e municipal.
"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem ter evitado a divulgação de supostos casos de corrupção ocorridos durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), relatados a ele por "um alto companheiro", no início da gestão petista.
Sem citar nomes, Lula disse que o episódio ocorreu quando um "alto funcionário" de seu governo, "que exerce função muito importante", foi prestar contas da situação econômica da instituição que acabara de assumir." (reportagem da Folha de São Paulo – Herança e Omissão 25/02/2005)
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Faltou nesse dia ao serviço, pela primeira vez na sua vida. No dia seguinte apresentou-se pálido e com o antigo capote, que parecia agora muito mais esfarrapado.
A noticia do roubo - apesar de alguns funcionários aproveitarem a ocasião para novas zombarias - comoveu, no entanto, muitos. Resolveram fazer uma subscrição, mas o resultado foi insignificante: os empregados da repartição tinham subscrito já para o retrato do diretor e tinham comprado, por indicação do chefe, amigo do autor, um livro que acabara de publicar-se. Um, mais disposto a compadecer-se, decidiu, pelo menos, ajudar Acaqui Acaquievich com um bom conselho e disse-lhe que não devia ir à Inspeção, pois podia suceder que, mesmo que o inspetor encontrasse o capote, este continuasse nas mãos da polícia, se não fosse capaz de demonstrar legalmente que lhe pertencia; melhor seria dirigir-se a uma "alta personalidade", com a mediação da qual pudesse dar-se mais rapidez ao andamento do caso.
Não pareceu mal a Acaqui Acaquievich tal conselho, e por isso decidiu dirigir-se a uma "alta personalidade". Convém saber que essa "alta personalidade" ascendera há pouco tempo, tendo sido, até ai, completamente ignorada. A sua posição, não sendo, aliás, das mais elevadas, comparada a outras, não era destituída de relevo. Sempre se encontrará gente disposta a apreciar estas personalidades que carecem de intrínseca importância e que, no entanto, são elevadas em relação a muitos. A personalidade a que nos referimos esforçara-se por se evidenciar de muitas maneiras, a saber: introduzira o costume de que os funcionários inferiores o esperassem na escada quando entrava de serviço e estabelecera que ninguém teria direto acesso à sua presença, devendo observar-se estritamente a ordem seguinte: o amanuense devia entregar a petição ao oficial; este, por sua vez, entregá-la-ia ao funcionário de categoria imediatamente superior, até chegar, de grau em grau, ao seu destino. Assim se encontra tudo infectado na santa Rússia pela imitação: julga cada um desempenhar bem o seu importante papel imitando o que lhe está acima. Diz-se até que certo conselheiro titular, quando o fizeram diretor de uma repartição modestíssima, fez separar, por um tabique, o seu gabinete daquilo a que ele chamava "o pessoal de serviço", pondo à porta dois contínuos agaloados, que abriam a porta a quem chegava: e convém saber que nesta importante secretaria de Estado pouco mais cabia que uma vulgar secretária.
O modo de receber, assim como os gestos e hábitos da "alta personalidade", eram graves e majestosos, mas um tanto complicados. O fundamento principal do seu sistema era a disciplina. "Disciplina, disciplina e... disciplina", costumava ele dizer. E ao repetir pela terceira vez esta palavra fixava intensamente a pessoa a quem se dirigia, ainda mesmo sem o menor motivo para tal, pois os dez funcionários de que se compunha o mecanismo burocrático da repartição andavam sempre num verdadeiro terror. A conversação da "alta personalidade" com os inferiores recaia, em geral, no tema disciplina e compunha-se de frases deste gênero: "Como se atreve você? Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem é que se encontra diante de si?" Era, noutros aspectos, homem de bom coração, afável e até serviçal para os da sua classe; mas a patente de general fizera-lhe perder o senso comum. Desde que recebera a nomeação, andava desvairado, descontrolara-se e não se apercebia bem do que se passava nele próprio. Se tratava com iguais, era um homem correto, ordenado, e até, sob muitos aspectos; inteligente, mas, apenas se encontrava num grupo de gente de situação social inferior, já não sabia onde tinha a mão direita: tornava-se hirto e silencioso e a sua situação era tanto mais digna de dó quanto é certo que ele era o primeiro a saber que poderia passar o tempo de maneira muito mais agradável. Transparecia, às vezes, nos seus olhos o desejo de entabular uma conversa interessante com os funcionários; mas paralisava-o este pensamento: "Não seria excesso da sua parte? Não seria excesso de familiaridade, com que a sua dignidade perigasse?" Como conseqüência de tais reflexões, permanecia eternamente só, impenetrável, limitando-se a emitir um ou outro monossílabo. Conquistou por esta razão o título de "o homem que se aborrece".
Foi perante esta "alta personalidade" que se apresentou Acaqui Acaquievich, precisamente no momento menos favorável, muito adverso para ele, embora o mais oportuno possível para a "alta personalidade", que nessa própria ocasião se encontrava no seu gabinete e dialogava muito alegremente com um antigo conhecido, companheiro de infância, a quem há já vários anos não via. Tal foi o momento em que lhe anunciaram um tal Baquemaquine. Perguntou bruscamente: "Quem é?" Responderam-lhe que "um funcionário". "Bom, que espere; não tenho agora tempo", replicou a "alta personalidade". É preciso dizer-se que a "alta personalidade" mentia descaradamente. Tinha tempo; já acabara a conversa entre os dois amigos e estavam naquele ponto em que se recorre a frases desta espécie: "Assim era nesse tempo, Ivan Abramovich." "E como dizes, Estêvão Valarmovich." Entretanto, mandou que o funcionário esperasse, com o propósito de demonstrar ao amigo, há muito retirado do serviço oficial numa casinha da aldeia, quanto tempo tinham de esperar os funcionários na sua antecâmara. Finalmente, depois de terem falado quanto quiseram (ou, melhor dizendo, depois de terem calado o suficiente) e terem fumado um cigarro sentados nas comovidíssimas poltronas, de repente, como se por casualidade se recordasse, disse ao secretário, que estava de pé, junto à porta, com uns papéis para informar: "Se ainda ai está esperando o funcionário, diga que pode entrar."
Vendo o humilde Acaqui Acaquievich, com o seu velho uniforme, voltou a cara de repente e perguntou: "Que deseja?", com o tom de voz brusco e forte que antes experimentara em casa para tais emergências. Acaqui Acaquievich, que era um homem muito respeitador, atrapalhou-se um pouco e, com a liberdade com que lhe era possível dispor da sua língua, explicou, juntando agora com mais freqüência partículas desnecessárias, que o capote era completamente novo, que lho tinham roubado de um modo desumano, que se lhe dirigia para que interviesse, escrevendo ao inspetor, fazendo aparecer o capote.
Pareceu ao general que tais maneiras eram demasiado familiares,
- Que é isso, senhor? - perguntou bruscamente. - Não conhece o regulamento? Donde vem? Não sabe como se procede em tais casos? A primeira coisa que devia fazer era dirigir um requerimento à secretaria; esse requerimento seria então remetido, pelas vias competentes, ao chefe de repartição; este, por seu turno, remetê-lo-ia ao secretário, e o secretário tê-lo-ia remetido a mim...
- Mas, Excelência... - disse Acaqui Acaquievich, esforçando-se por reunir a pouca força que encerrava a sua alma e sentindo que transpirava de modo atroz. - Eu, Excelência, atrevi-me a apresentar-me diretamente, porque os tais secretários... é gente em que se não pode confiar...
- Quê? ... O quê?... O quê?... - clamou a "alta personalidade"... - Onde foi o senhor buscar essa idéia? Donde lhe surgiram tais pensamentos? Que audácia se está generalizando entre os jovens contra os superiores e a hierarquia?
A "alta personalidade" demonstrava assim que não reparara em Acaqui Acaquievich, o qual estava já nos 50; doutra maneira, chamar-lhe jovem seria bastante estranho.
- Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem tem diante de si? Percebe isto? Percebe?, pergunto eu.
E deu uma forte patada no chão, imprimindo à voz tanta energia que mesmo um outro que não fosse Acaqui Acaquievich teria ficado bastante assustado. Este, porém, deveras aterrado, sentiu um abalo interior e começou a tremer convulsivamente; mal se podia agüentar de pé, e, se um empregado não acorresse a ampará-lo, teria caído ao chão; retiraram-no hirto do gabinete. Mas a "alta personalidade" estava contente com o efeito, que fora muito além de todos os seus cálculos. Embriagado com a idéia de que a sua voz forte era capaz de perturbar um homem até àquele ponto, olhou de lado para observar a impressão que fizera a cena, notando, não sem profundo prazer, que o amigo se encontrava na mesma situação indefinível e que até começava a sentir angústia.
Do modo como saíra do gabinete da "alta personalidade" e como chegara à rua nunca Acaqui Acaquievich foi capaz de se recordar. Não podia fixar-se no que acontecera: jamais, em toda a sua vida, um general, e demais o vento e a neve fustigavam-no; seguia pelo meio da rua, com a boca aberta, perplexo; o vento soprava, soprava, como é habitual em Sampetersburgo soprar o vento nas quatro direções, de todas as encruzilhadas. Em certo momento a garganta resfriou-se-lhe, começou a sentir os sintomas de uma angina e, quando chegou a casa, não tinha sequer forças para proferir uma palavra. Deitou-se na cama com o pescoço exageradamente inchado. No dia seguinte sobreveio uma febre altíssima. Graças à magnânima ajuda do clima sampetersburguês, a enfermidade progrediu mais rapidamente do que poderia esperar-se, e quando chegou o doutor tomou-lhe o pulso e entendeu que devia limitar-se a receitar qualquer coisa para o enfermo não morrer sem o benéfico auxílio da medicina; quanto ao mais, declarou que não viveria além de dia e meio; dirigiu-se à patroa, dizendo: "E a senhora não perca tempo: mande vir um caixão de pinho, pois um de mogno é muito mais caro."
O CAPOTE
por Nicolai Gogol

Muralha da China, em 1990, com cerca de 7 mil quilômetros de extensão, serviu de fronteira durante seu primeiro milênio de existência.
MURALHAS QUE DIVIDIRAM OS HOMENS
685 a.C.
Início da construção da
Grande Muralha da China
122 d.C.
Muralha de Adriano na Inglaterra
1940-1944
Linha Maginot e muralha do Atlântico
1961
Berlim dividida em dois setores,
Leste e Oeste
2004
"Barreira de segurança" entre a
Cisjordânia e Israel
Muitas foram destruídas pela ação do tempo ou pelo próprio ser humano por não mais cumprirem seu papel original. Para se protegerem ou separarem, os homens constroem muros desde a Antigüidade. O exemplo mais ancestral é o da Grande Muralha da China, com seus 3.460 quilômetros de extensão, mais outros 2.860 quilômetros de ramificações. Formidável obra de defesa militar, em alguns pontos com 16,5 metros de altura (o que equivale aproximadamente a um prédio de seis andares) e torres invariavelmente erguidas a cada 60 metros, ela serviu de fronteira durante mil anos. Seus primeiros sinais remontam ao século VII antes de nossa era.
Entrincheirar-se tem sido uma constante na humanidade. Mas a longo prazo essas muralhas não resistiram à pressão dos homens, das idéias e das armas. É e sempre será possível contornar um muro, por mais alto e perfeito que seja. Uma esperança para os cipriotas, turcos e gregos, divididos desde 1963, assim como para os irlandeses do Norte, católicos e protestantes, desde o fim dos anos 60, ou ainda para os coreanos do Norte e do Sul, eles também separados por um muro de arame farpado desde o armistício de 1953.

MUITO BARULHO POR NADA...
O mundo tem ficado cada dia mais barulhento. As inovações tecnológicas se caracterizam pela miniaturização das parafernálias e pelo excesso de ruídos que fazem. Acrescenta-se a isso, a conturbada vida das pessoas, que diante de qualquer coisa aprontam um verdadeiro escarcéu. O poeta inglês, tinha toda razão ao escrever a sua comédia, dar-lhe o singelo título de "muito barulho por nada".
Quando ocorreu a tragédia, no final de dezembro passado, em função do maremoto que atingiu vários países na costa do sudeste asiático, nunca se viu tanto barulho. Hoje, a situação daquelas pessoas que conseguiram sobreviver as invasões das tsunami, é lamentável, porém quase nada de efetivo foi feito para ajudá-las, apenas muito barulho. Transformaram o que foi uma tragédia em um show.
E tanto ruído não é a toa, ele é uma boa forma de desviar a atenção das pessoas para o que realmente alguns vem fazendo com o mundo. Com fim da União Soviética, balança reguladora do capitalismo selvagem, o mundo vem sofrendo uma grande expropriação de recursos, que são dirigidos ao capital financeiro, o câncer que nada produz e só acumula bens.
Diante de tudo isto, tenho tentado, faz algum tempo, capturar o silêncio das coisas. Para apreender o essencial e observar com mais clareza os fenômenos que estão ocorrendo no mundo.
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